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A Cidade de Juiz de Fora

Quando a notícia chegou à Coroa Portuguesa, em Lisboa, a ordem foi dada: toda aquela região das Minas Gerais deveria ser considerada como ”áreas proibidas dos sertões do leste“, e ninguém poderia ali penetrar. E foi assim que a região onde estão hoje Juiz de Fora e a Zona da Mata mineira estiveram fechadas, oculta por intransponíveis florestas, durante quase 200 anos. As informações que chegaram à Coroa Portuguesa indicavam que nesta região havia muito ouro. Só no início do século XVIII, quando o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de outro bandeirante, Paes Leme, obteve permissão do governo português para entrar nas ”áreas proibidas“, é que a região da Zona da Mata teve o primeiro contato com a ”civilização“.

Até então, essa terra era habitada pelas tribos dos coroados e puris, formadas por poucos índios. Com a abertura, autorizada para o transporte do ouro extraído em Sabará, Mariana, Vila Rica de Ouro Preto, Caeté, São João Del Rei, Pitangui e Arraial do Tejuco, atual Diamantina, surgiu o chamado Caminho Novo, que em seu trajeto foi gerando outras cidades, como Barbacena e Matias Barbosa. No meio deste caminho estava um povoado chamado Santo Antônio do Paraibuna, que em 1865 se chamaria Juiz de Fora. Na verdade, descobriu-se depois, a Zona da Mata não tinha ouro, mas uma terra excelente para o plantio do café.

Nascia então outro tipo de riqueza no País, graças à cultura cafeeira, o chamado ”ouro verde“. Com essa nova produção foram surgindo as grandes fazendas, quase todas doadas pelo Governo Imperial às pessoas de origem nobre. Cidades como Leopoldina, Cataguases e Rio Preto se expandiam ao sabor do café, mas nada se comparava a Juiz de Fora. O crescimento da cidade, no entanto, necessitava de espaço, não só para a circulação dos produtos como também para o desenvolvimento urbanístico. Dois homens contribuíram para isso: Henrique Guilherme Fernando Halfeld e Mariano Procópio Ferreira Lage.

O primeiro, engenheiro, construiu a Estrada do Paraibuna, que, em 1836, acabaria gerando a rua Direita, atual avenida Rio Branco, em torno da qual surgiria o centro comercial da nova cidade, como a rua Califórnia, hoje rua Halfeld. Vinte anos depois, com o objetivo de reduzir a viagem entre a Corte, no Rio de Janeiro, e a Província de Minas, o empresário Mariano Procópio construía a Estrada União e Indústria, abrindo assim outro caminho importante para o transporte do café. Com a construção da estrada, Juiz de Fora recebia os primeiros imigrantes, os alemães, que geraram, por sua vez, através da criação de curtumes, fundições e malharias, outro processo de crescimento, o industrial.Em 1875 Juiz de Fora já era a cidade mais próspera da região. Por esse tempo, quase dois terços da população eram formados por escravos, isto é, para cada grupo de três pessoas, apenas uma era livre. Com o surgimento das campanhas, tornando gradualmente livres os negros, os senhores das terras e das indústrias começaram a buscar outras alternativas, principalmente através do trabalho dos imigrantes. Assim, além dos alemães, Juiz de Fora recebia também muitos italianos, que ampliavam a experiência em outros setores, incluindo o comércio e a prestação de serviços.

Com o declínio da produção cafeeira, Juiz de Fora não sentiu o efeito negativo, já que a indústria e o comércio assumiam seu papel de relevância e dinamismo. Com o crescimento, era inevitável também a necessidade de uma organização urbana. Em 1860 a cidade já possuía ruas calçadas, matadouro e cemitério municipais. No dia 24 de junho de 1861, o imperador Dom Pedro II escrevia a lápis em seu diário de viagem: ”A cidade consta principalmente de uma rua, de talvez mil braças com bastantes casas de sobrado e algumas mais que ordinárias, chamada Direita, parecendo sê-lo e outra bem alinhada que atravessa na maior parte sem casas, e outra denominada Califórnia e agora Halfeld, que tem dado diversos terrenos para uso público“. Em 1870, Juiz de Fora ganhava telégrafo, fórum e banco, além de jornais e duas estradas de ferro, a Dom Pedro II e a Leopoldina. O poder administrativo pertencia à Câmara dos Vereadores. Seu presidente tinha as mesmas funções que tem hoje o prefeito. E era um poder ocupado pela elite: fazendeiros, médicos, advogados. Os fazendeiros tinham como hábito, nessa época, deixar suas fazendas aos domingos e, com toda a família e a criadagem, deslocar-se até o centro de Juiz de Fora, para assistir às missas na Igreja Matriz de Santo Antônio, que depois se tornaria a Catedral Metropolitana. Na cidade eles se hospedavam em suas suntuosas mansões, ou casarões, construídas para abrigá-los apenas durante o fim-de-semana. Eram chamadas de ”casas de domingo“.

Em 1880 os serviços urbanos foram ampliados, com bondes, telefones e a fundação do Banco de Crédito Real, em 1889. Neste mesmo ano a cidade ganhava também a primeira Usina Hidrelétrica da América Latina, construída pelo industrial Bernardo Mascarenhas. Através da energia elétrica, a cidade continuava a crescer, principalmente no setor têxtil. No princípio do século XX Juiz de Fora possuía 58 indústrias e iniciava um ciclo de maior desenvolvimento ainda, incluindo aí o cultural. A arquitetura buscava inspirações nos casarões do Rio de Janeiro, com todas suas extravagâncias. As casas eram então adornadas com abacaxis dourados nos telhados, bolas de vidro nas sacadas e pássaros de barro e cal nos muros, além dos jardins com seus repuxos. Grandes peças eram exibidas nos teatros Juiz de Fora e de Misericórdia, que depois se transformaria no Teatro Novelli, de propriedade do fundador do Museu Mariano Procópio, Alfredo Ferreira Lage. A sociedade se encontrava nos cinemas Polytiama, Pax, Pharol, Glória e Halfeld, onde se misturava com os intelectuais da época, como Murilo Mendes, Alves Junior e Belmiro Braga. Eram tempos de romantismo e de lirismo, de conversas e namoros no Parque Halfeld, e de ”footing“ na rua Halfeld, caracterizado pela discriminação: os brancos do lado direito e os pretos do lado esquerdo. Nos clubes - Juiz de Fora, Círculo Militar, Grafos e Planetas - dançavam-se tangos, valsas e chorinhos, enquanto nos carnavais desfilavam-se nos corsos. Assim Juiz de Fora tentava superar também seus problemas, como as más condições de limpeza e de saneamento, que geraram diversas epidemias, e as constantes enchentes - principalmente em 1906 e 1940 - provocadas pela sinuosidade do rio Paraibuna, que teve de ser retificado para evitar novas inundações.

E foi neste cenário de problemas e de desenvolvimento econômico e cultural que Juiz de Fora recebeu, em 1936, como doação de Alfredo Ferreira Lage, o Museu Mariano Procópio, com seu rico acervo histórico e seu belo parque. Já então a cidade era conhecida por diversos títulos: ”Princesa de Minas“, ”Princesa do Paraibuna“, ”Manchester Mineira“, ”Barcelona Mineira“ e ”Atenas Mineira“.

Fotografias
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