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A famíla Imperial

A história se repetia todas as manhãs, às cinco horas: dois escravos batiam na porta e Dom Pedro Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon (1798-1834), ou simplesmente Dom Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, levantava-se e ia à missa. Às nove horas almoçava, depois se reunia com os ministros e às duas horas da tarde jantava. A seguir saía para um passeio a cavalo, acompanhado de sua mulher, dona Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo Lorena (1797-1816), a dona Leopoldina, com quem teve sete filhos. À noite ouvia música - ou tocava algum instrumento - e às nove horas ia dormir. Essa rotina imperial foi seguida durante muitos anos, desde 1821, quando Dom Pedro I assumiu a regência no Brasil, até 1831, quando abdicou em nome de seu filho, Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocácio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga (1825-1891), o Dom Pedro II.

A vida no palácio, no Rio de Janeiro, também era muito simples e rotineira, ao contrário do fausto e do luxo das cortes européias. O próprio palácio onde vivia a família imperial tinha uma decoração simples, e muitos desses móveis estão hoje no acervo do Museu Mariano Procópio. São móveis de jacarandá, poucos tapetes, alguns quadros e jarros chineses, e os espelhos, emoldurados em ouro. Dom Pedro I, na verdade, gostava mais do contato com os amigos, de montar e dos trabalhos artesanais de carpintaria e marcenaria. E de uma mulher chamada Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), com quem manteve ”uma rumorosa ligação“ de 1822 - quando ele proclamou a independência do Brasil - até 1829. Durante esse tempo Domitila foi transformada em Viscondessa e depois em Marquesa de Santos. As festas eram raras e quase sempre aconteciam no dia 12 de outubro, aniversário do imperador.

As salvas de canhão saudavam o imperador e a grande parada era acompanhada pela população em festa. Outros acontecimentos sociais da corte eram a apresentação de peças teatrais e musicais no Teatro São João ou as reuniões no Paço. Nas festas nacionais, o imperador recebia seus súditos para a cerimônia do beija-mão, e a cadeira usada nesta cerimônia também faz parte do acervo do Museu Mariano Procópio. Com a morte de dona Leopoldina, em 1826, Dom Pedro I resolveu casar novamente. Durante dois anos buscou uma nova imperatriz. A eleita foi dona Amélia Augusta Eugênia Napoleão de Beauharnais (1812-1873), neta do rei da Baviera, com quem teve uma filha.

O casamento foi em 1829, exatamente no ano em que Dom Pedro I encerrava sua ”ligação rumorosa“ com a Marquesa de Santos, com quem tivera cinco filhos. Três anos depois o imperador abdicava. Começava o reinado de Dom Pedro II. Mas só aos 15 anos, declarado maior, é que Dom Pedro II assumiu realmente o poder. Ao contrário de seu pai, o novo imperador gostava de ler, estudar e de acompanhar as novidades científicas no mundo. Uma delas foi a fotografia. Em 1840, um ano após a invenção, o imperador já havia aderido aos encantos da descoberta, e algumas de suas fotos encontram-se no acervo do Museu Mariano Procópio. Mas a corte pouco mudou com Dom Pedro II. A austeridade ainda era a mesma e o imperador se preocupava mais com seus estudos e conferências com estadistas.

Seu programa oficial era basicamente a reunião com o Conselho de Ministros, as audiências e os despachos. Nas horas vagas, estudos e mais estudos. Já casado com dona Teresa Cristina Maria de Bourbon (1822-1889), Dom Pedro II gostava de dar suas escapadas à noite. Para isso mandava o camareiro ler em voz alta, deixando aberta a porta entre os aposentos reais. A imperatriz dormia imaginando que o marido estivesse ouvindo a leitura, enquanto este já estava ausente. Quando Dom Pedro II conheceu melhor sua esposa, mudou de comportamento. E sua convivência com imperatriz já não dispunha mais desses artifícios. Simples, liberal e afável, o imperador do Brasil gostava, no entanto, de cochilar.

E isso acontecia no teatro, nas reuniões com ministros e até durante os estudos. Dom Pedro II e dona Teresa Cristina tiveram quatro filhos, mas só duas sobreviveram, as princesas Isabel e Leopoldina. Isabel casou-se com o Conde DEu e ambos tornaram-se muito amigos da família Ferreira Lage, visitando constantemente Juiz de Fora, e hospedando-se na ”Villa“. No verão, a Família Imperial ficava no Palácio de Petrópolis, onde o movimento social era maior. Nas duas vezes em que visitou Juiz de Fora, o imperador Dom Pedro II trouxe a família. Na primeira vez, em 1861, para a inauguração da Estrada União e Indústria.

Foi aí que o imperador conheceu a bela ”Quinta do Comendador Lage“, com as residências da família Ferreira Lage, o imenso parque, e a majestosa ”Villa“, que não ficou pronta a tempo de hospedá-lo. De qualquer maneira, extasiado pela beleza do lugar, o imperador registrou em seu diário de viagem: É deste aprazível sitio que a arte converteu num brinco igual a qualquer lugar de banhos da Alemanha, sob o céu recamado de estrelas que porfiam com as inumeráveis luzes, que cintilam nos jardins e elegantes edifícios“. Em sua segunda visita, em 1869, Dom Pedro II e a família imperial estiveram em Juiz de Fora para a inauguração de outra obra de Mariano Procópio, a Escola Agrícola.

Nessa viagem, o imperador e sua comitiva passearam de barco pelo lago da Quinta dos Lage, indo até o rio Paraibuna, através de um canal que contornava a colina onde está a ”Villa“. Segundo a reportagem publicada no ”Jornal do Comércio“, do Rio de Janeiro, na edição de 27 de junho de 1869, ”durante o passeio de Suas Majestades, os alemães da colônia da Companhia formavam em torno do lago uma linha de archotes cujos fogos refletiam nas águas prateadas pelo clarão da lua“. Vinte anos depois, exatamente no dia 15 de novembro de 1889, depois de muitos conflitos entre monarquistas e republicanos, a República era proclamada.

E a família imperial, dois dias depois, era embarcada sigilosamente para Portugal, encerrando-se assim 67 anos de monarquia no Brasil. No dia 5 de dezembro de 1891, Dom Pedro II morria em Paris, onde estava exilado.

Fotografias
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