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26 de Janeiro de 2014 - 07:00

Bikers analisam os perigos da prática esportiva da modalidade em Juiz de Fora, seja por hobbie ou em nível competitivo

Por WALLACE MATTOS

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Atletas praticam na BR-040
Atletas praticam na BR-040

Nos embates gerados dentro de uma cidade em constante expansão, por vezes uma prática esportiva entra em rota de colisão com outros elementos do dia a dia do município. Recentes acidentes envolvendo ciclistas e veículos a motor em Juiz de Fora reacenderam a discussão sobre a disputa de espaço entre ambos em ruas e avenidas cada vez mais saturadas. Em busca de identificar os principais problemas e apontar possíveis caminhos para que se diminuam os atritos nessa conturbada relação entre quem utiliza as magrelas para treinamento esportivo - ou buscando uma melhor qualidade de vida - e carros, motos, ônibus e caminhões, a Tribuna ouviu atletas locais e praticantes eventuais na última semana.

A falta de ciclovias ou ciclofaixas no Centro da cidade é apontada pela maioria dos praticantes de ciclismo como o principal motivo de exposição a riscos de quem usa a bicicleta na região. Para o ciclista e atual diretor-técnico da equipe da Universidade Federal Fluminense (UFF) de ciclismo, o juiz-forano Wolney Moraes, de 34 anos, 20 deles dedicados à modalidade, o ciclista que tem de passar pelas ruas mais centrais de Juiz de Fora só estaria seguro com a criação de espaços determinados para seu deslocamento. "Andar de bicicleta no Centro é muito arriscado. A maioria dos motoristas não nos respeita, não obedece a distância de 1,50m determinada pelo Código de Trânsito e passa quase sempre raspando ou nos fecha. A solução para isso seriam mesmo as ciclovias. Em Niterói, cidade-sede da equipe que coordeno, por vezes conseguimos realizar nossos treinamentos dentro da área urbana, sem ter de ir para a estrada, justamente por conta da existência das ciclovias", explica.

Para o triatleta Marcos Hallack, 34, também há 20 anos pedalando, o problema da luta por espaço dos ciclista no município tem três aspectos relevantes. "Quando falamos de bicicletas, três pontos têm de ser considerados: a mobilidade urbana, pois elas são hoje uma realidade de transporte subutilizada em Juiz de Fora; o lazer, para o qual a única área destinada a isso na cidade é a ciclovia compartilhada da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); e o treinamento esportivo, que é apenas a ponta do iceberg, e para o qual temos uma área que utilizamos meio na marra, a Via São Pedro (BR-440), sem as condições ideais", enumera o atleta.

 

'Vou de carro'

Procurando manter prazerosa a prática do ciclismo, quem quer desfrutar de bons momentos em cima de sua magrela tem procurado fugir das pedaladas no Centro. Ciclista amador, o músico e DJ Alexandre "Tomate" Santos, 40, se exercita em busca de bem-estar e tem que se planejar antes de sair de casa pedalando. "Diversos lugares aqui em Juiz de Fora são complicados de andar. Não dá para dividir espaço com os carros, então procuro evitar as principais avenidas e ruas. Se você tem que desviar de um bueiro, um buraco, na Rio Branco ou Itamar Franco, por exemplo, acaba passando aperto. Por isso tenho procurado trajetos por ruas mais tranquilas ou coloco minha bicicleta no carro e vou para onde não há tanto movimento", conta.

Mesma atitude de Alexandre tem o engenheiro civil Guilherme Maranhão, 39. "Pedalo por prazer e não quero ficar preocupado se vou sofrer um acidente a cada metro. Assim, quase nunca pedalo nas ruas mais movimentadas, pois as bicicletas hoje não têm a mínima proteção para circular nesses locais. Geralmente, vou de carro até onde costumo pedalar. Na cidade não há condições de andar de bicicleta. Se os carros já estão disputando espaço uns com os outros, que dirá com os ciclistas. Não há condição de competir", constata.

 

 

Perigo na BR-040 e na Via São Pedro

Sem alternativas para o treinamento em áreas centrais da cidade, os atletas locais procuram desenvolver suas atividades em outros locais. Mas mesmo esses têm problemas, e os praticantes de ciclismo estão expostos a riscos. "Em Juiz de Fora, nós treinamos principalmente na Via São Pedro, para distâncias mais curtas, e na BR-040, quando cumprimos trechos maiores. Não há muito como fugir da estrada, no mundo inteiro é assim. É arriscado, sem dúvida, pois utilizamos o acostamento e há veículos, principalmente caminhões e ônibus, que fazem curvas invadindo esse espaço, e o risco de encontrar um ciclista é grande, causando um acidente fatal. Quando podemos, vamos com um carro nos acompanhando (para dar proteção e apoio logístico), mas nem sempre isso é possível", conta Wolney Moraes.

Recentemente, a Concer, concessionária que administra o trecho da BR-040 entre Juiz de Fora e Rio de Janeiro, divulgou que irá instalar placas de sinalização alertando os motoristas da presença de ciclistas no acostamento da rodovia. Mas, a medida é considerada pouco ou nada eficaz por quem usa ou usava o local para seus treinos. "Essa sinalização na estrada já existe em Goiás, no Mato Grosso do Sul, no Paraná. É um começo, mas se não vier com um trabalho de conscientização dos condutores, não adiantará", diz Moraes.

Hallack tem opinião similar. "Não adianta a Concer instalar as placas se ela mesma fez outra alteração que expõe os ciclistas a um risco enorme. Há cerca de um ano, foram instaladas sinalizações em alguns trechos do acostamento conhecidas como 'caixões'. Elas não permitem a passagem das bicicletas entre elas, ou seja, ou pulamos o obstáculo para continuar no acostamento, correndo risco de cair, ou invadimos a pista de rolamento, correndo o risco de sermos atropelados. Esse é um dos motivos pelo qual hoje desaconselho o uso da BR-040 para treinos", diz Hallack.

Mesmo o local considerado mais apropriado por Hallack tem problemas. "Atualmente, avalio a Via São Pedro como o único local apropriado para o treinamento ou uma pedalada segura. Estabelecemos uma rotina na qual muita gente adotou a área para sua atividade. Em uma quarta-feira, por exemplo, é fácil você encontrar uns 70 ciclistas por lá. Mas também não é o ideal, pois não existe sinalização específica, o trânsito é pouco, mas existe, então dividimos espaço com carros, e as condições de conservação e limpeza estão longe do satisfatório. Mas hoje é, a meu ver, nossa única alternativa", lamenta.

 

Questão de educação

Entre as sugestões dos amadores e profissionais da bike, o coro pela implantação de ciclovias só não é mais forte do que o pedido por mais consciência de quem está atrás do volante. "A meu ver, a medida mais rápida para se amenizar esse embate seria a conscientização dos motoristas para que respeitem os ciclistas", acredita Wolney. "Não é fácil resolver rápido. A construção de ciclovias demanda um projeto mais demorado em Juiz de Fora. O que falta de mais imediato é mesmo educação para o trânsito", concorda Tomate. Guilherme assina embaixo: "A forma mais direta de minimizar esse problema é investir em campanhas de educação tanto para motoristas como para as crianças que se tornarão futuros motoristas e ciclistas também".

Para Hallack, o que falta para se resolver a questão é vontade de encarar o problema de frente. O triatleta dá sugestões do que poderia ser feito, mas se diz pessimista quanto a vê-las colocadas em prática. "Poderiam ser feitas ciclofaixas na cidade, na Avenida Brasil, na Deusdedit Salgado; instalar um bicicletário no Parque Halfeld; fechar parcialmente a Avenida Rio Branco aos domingos, ampliando as opções de lazer da cidade; criar áreas de proteção ao ciclista para treinos, por exemplo das 5h às 7h na Avenida Brasil e das 19h às 21h na Via São Pedro. Mas é preciso vontade política. Em Cali, na Colômbia, se fecha quase 200km de malha viária para o lazer de bicicleta, patins e outras atividades, aos domingos. E o projeto começou com 4km, depois 10km, sempre envolvendo a população para proteger os ciclistas. Dá para fazer, mas estou pessimista de que vá ver algo do tipo acontecer aqui ainda."

 

 

Plano de mobilidade prevê inclusão de bicicletas

A disputa de espaço entre ciclistas e motoristas nas ruas da cidade está entre as preocupações do Poder Público. O secretário de Transporte e Trânsito, Rodrigo Tortoriello, explica que a utilização das bicicletas está dentro do planejamento para o futuro do transporte em Juiz de Fora. "Existe o projeto de uma grande ciclovia ao longo do Paraibuna. Paralelamente a isso, estamos desde o meio do ano passado em contato com cicloativistas e esportistas buscando um caminho, soluções. Um plano amplo de mobilidade urbana para a cidade será desenvolvido este ano, abordando questões como transporte coletivo e de carga, por exemplo, e os alternativos, no qual as bicicletas se incluem", explicou.

Segundo Tortoriello, ainda não há medidas concretas previstas para tentar minimizar o embate nas ruas de Juiz de Fora, e a elaboração do plano para o trânsito local vai nortear as ações. "A cidade nunca teve um plano mais ousado para seu transporte e nem um que incluísse bicicletas. Temos que lembrar que elas atuam nas ruas em um sistema de trânsito como outro qualquer. É esse planejamento, desenvolvido ao longo deste ano, que irá nos indicar que medidas de curto, médio e longo prazo deveremos tomar para dar segurança aos ciclistas. Não correremos o risco de errar. Pior do que não ter um plano de mobilidade é fazer isso errado", considera o secretário.

A Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) também participa da elaboração do plano. Segundo o subsecretário de Planejamento Territorial, Alvaro Giannini, a principal obra planejada para os ciclistas na cidade pode começar ainda em 2014. "Estamos em fase de estudos para a construção da ciclovia às margens do Rio Paraibuna. É a parte mais visível do plano cicloviário, uma parte do plano de mobilidade. Ela iria da Barreira do Triunfo até a Vila Ideal. A ideia é construí-la em partes, e a intenção é que a primeira delas comece esse ano. Mas ainda dependemos do fim desses estudos e da parte orçamentária."

 

Parceria

Quanto a estabelecer horários de treinamentos ou o fechamento eventual de vias da cidade, Tortoriello disse que a Settra está aberta ao diálogo. "Essas sugestões podem ser avaliadas, certamente. No ano passado, chegamos a visitar a Via São Pedro para estabelecer uma parceria com as pessoas que utilizam o local para lazer e treinamento, mas não avançamos. Não podemos assumir sozinhos a responsabilidade de sinalizar e fechar, mesmo que seja em parte, essas vias. Temos que contar com a parceria dos ciclistas e das diversas assessorias esportivas que usam o espaço. Poderíamos mandar alguém para orientar o trânsito no local, por exemplo, mas não mobilizar uma grande infraestrutura para isso, porque temos outras demandas na cidade como, para citar uma delas, o controle de tráfego próximo às escolas", explica o secretário.

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