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11 de Maio de 2014 - 06:00

Pelo menos três jogadores de Juiz de Fora vestiram a camisa verde e amarela, mas o Tupi fez história enfrentando a Seleção Brasileira

Por RENATO SALLES

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Geraldo Magela Tavares, ex-técnico do Tupi
Geraldo Magela Tavares, ex-técnico do Tupi
Moacir Toledo, ex-jogador do Tupi
Moacir Toledo, ex-jogador do Tupi
Andrade, ex-jogador do Flamengo e da Seleção
Andrade, ex-jogador do Flamengo e da Seleção

O ano de 2014 tem tudo para ser marcante para o futebol brasileiro. Após 64 temporadas, a Seleção Brasileira volta a ser a anfitriã do maior evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo, no mesmo ano em que comemora o centenário de uma história mais que vitoriosa, que fez o Brasil se tornar internacionalmente conhecido como o "país do futebol". Em 21 de julho de 1914, a "Pátria de Chuteiras" deu seu grito do Ipiranga. No debute do "scratch" canarinho nos gramados. A estreia foi um prenúncio do que seria corriqueiro nos últimos cem anos. Vitória brasileira por 2 a 0 sobre os ingleses do Exeter City, nas Laranjeiras, diante de um público de pouco mais de três mil felizardos. Com um belo "shoot", Osvaldo Gomes foi o primeiro jogador a marcar com a amarelinha. Osmam anotou o segundo "goal" da equipe que tinha como estrela maior o "center-forward" Friedereich, um cara que fez mais gols que Pelé.

Em sua longeva história marcada pela conquista de cinco Copas, a única equipe pentacampeã mundial do planeta mantém uma relação tímida com Juiz de Fora. "A Seleção principal nunca jogou aqui", lembra o ex-treinador e radialista juiz-forano Geraldo Magela Tavares. Mas se a Seleção Brasileira nunca desfilou talento em gramados locais, o time canarinho já recorreu ao futebol da cidade para testar seus jogadores. Então recém-alcunhado de "Fantasma do Mineirão", após uma série de vitórias sobre o trio belo-horizontino Cruzeiro, Atlético e América, o Tupi foi convidado para realizar um jogo-treino contra o Brasil durante a preparação para o Mundial de 1966. Se o hino nacional diz que "um filho teu não foge à luta", o time de Magela, formado basicamente por atletas da cidade, amarrou às chuteiras e seguiu para Caxambu para escrever aquele que seria um dos principais capítulos da história carijó.

"Chegamos lá e vimos Garrincha e Pelé andando no local do treinamento. Pensei: 'onde foi que viemos parar?'", lembra Moacir Toledo, o Toledinho, um dos principais jogadores daquela equipe fantasmagórica. Apesar de o susto inicial do ex-ponteiro, a verdade é que era o Brasil, então bicampeão mundial, quem não sabia o que estava por vir. "Jogamos o nosso jogo e logo o João Pires (ex-ponta carijó falecido no ano passado) fez um a zero. Ficou naquilo até acabar o tempo previsto para a atividade", lembra Toledo. A situação deve ter colocado uma pulga atrás da orelha do técnico da Seleção, Vicente Feola. "Ele me chamou em um canto e me pediu para continuarmos jogando. Havia 44 jogadores treinando com a Seleção. Então, eles colocaram outro time. Só aí empataram, com um gol de Servílio (ex-atacante de Portuguesa e Palmeiras, que acabou cortado da Copa). Os dois times que nos enfrentaram tinham grandes jogadores. Pelé, Garrincha, Gérson. Edu, Tostão... Estava todo mundo lá", lembra Magela.

 Foto histórica

Após a partida, um ato de Pelé, considerado por muitos o maior jogador da história do futebol, marcaria para sempre a vida de Toledinho. "Estávamos jantando, e ocorreu um alvoroço do lado de fora do hotel. Quando vi, era nada mais, nada menos que o Pelé, que estava na porta. Ele entrou procurando pelo loirinho que não havia deixado ele jogar. Ele chegou perto de mim e falou: 'tenho milhares de fotos, mas, essa, eu queria te presentear. Gostei muito do time de vocês'", rememora o ponta carijó. "É uma imagem que correu o mundo. Já fui convocado para a Seleção Mineira, mas a verdade é que todo atleta sonha com a camisa brasileira. É a coisa máxima que um jogador pode querer. Jogamos contra e fizemos por onde não fazer feio. Queríamos mostrar que sabíamos jogar." Hoje, a foto de Pelé e Toledo está eternizada nas paredes do saguão do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio e é prova viva do quanto aquele Tupi de 1966 sabia jogar.

A relação entre o Fantasma do Mineirão e o fantasma maior de todas as copas não acabaria por ali. "Eles não ficaram satisfeitos. Pediram para jogar em uma outra oportunidade. Dessa vez, o treinamento foi em Três Rios. O Tupi foi o único time que jogou duas vezes com a Seleção durante aquela preparação. E foi o único time que foi convidado para o desafio. As outras equipes se ofereciam. Dessa vez, nós perdemos por 3 a 1, mas o jogo foi parelho e estava empatado por um a um até os momentos finais", explica Magela.

 

 

Último juiz-forano com a amarelinha

Assim como a Seleção nunca atuou na cidade, poucos atletas locais tiveram a honra de vestir a camisa da equipe principal do Brasil. Um deles foi Álvaro Lopes Cançado, o Nariz. Nascido em Campo Florido (MG), na época distrito de Uberaba, o zagueiro começou no futebol nas categorias de base do Grambery antes de atuar pelo Tupi, e teve a honra de defender o estandarte nacional na Copa do Mundo de 1938, época em que defendia o Botafogo. "O Nariz foi reserva naquela Seleção que terminou a Copa na terceira colocação. Ele jogou no jogo-desempate contra a Tchecoslováquia", lembra Geraldo Magela Tavares. Outros atletas nascidos na cidade, como o zagueiro Florindo, que jogou pelo Vasco e pelo Atlético-MG na década de 1930, e o volante Zé Carlos, com passagens pelo Cruzeiro e pelo Guarani nas décadas de 1960 e 1970, também tiveram o prazer de vestir o manto canarinho. O último juiz-forano a ter essa distinção foi o volante Andrade, quatro vezes campeão brasileiro pelo Flamengo e uma vez pelo Vasco.

"Participei de uma Copa América (em 1983) e da Seleção que disputou as Olimpíadas de Seul (em 1988, quando o Brasil ficou com a medalha de prata). Ao todo, foram 16 jogos pela Seleção. Defender a Seleção é a coisa mais gratificante que existe. Aquela camisa é o degrau mais alto da carreira de qualquer um. Meu momento mais marcante foi em um jogo contra a Áustria em Viena, em partida preparatória para o torneio olímpico. Em um lance, driblei quatro jogadores adversários antes de chutar cruzado. Apesar de ter feito gols importantes pelo Flamengo, este foi o gol mais bonito da minha carreira", lembra Andrade, antes de revelar uma decepção. "Queria muito ter disputado a Copa de 1982. Vivia um grande momento pelo Flamengo. Vínhamos de título da Libertadores, Mundial e Brasileiro. A Seleção já tinha um grupo fechado, com grandes jogadores, mas sentia que tinha condições de jogar e ajudar o Brasil. Era uma equipe acima da média. Mas, como volante, acho que eu tinha espaço."

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