Publicidade

15 de Dezembro de 2013 - 07:00

Sem casa, vivendo de parcerias sazonais, Associação Desportiva Juiz de Fora completa 17 anos como uma das entidades atléticas de mais sucesso em MG

Por WALLACE MATTOS

Compartilhar
 
Equipes masculina e feminina da ADJF unidas pela bolaOLAVO PRAZERES
Equipes masculina e feminina da ADJF unidas pela bolaOLAVO PRAZERES

Ter sucesso de alcance estadual no esporte não é tarefa fácil para nenhuma entidade de cidades do interior. Com mais recursos, habitualmente as capitais concentram as principais agremiações. Mas algumas vezes essa dinâmica é desafiada e, superando a falta de apoio, de condições ideais de treinamento e toda sorte de dificuldades financeiras, alguns teimam em não aceitar a situação e conseguem se manter entre os melhores de suas modalidades.

É esse o caso da Associação Desportiva Juiz de Fora (ADJF), entidade nascida como forma de concentrar esforços para que atletas de handebol não ficassem à mercê dos ventos políticos que sopram nos clubes locais. A agremiação cresceu, transformando-se em uma das potências mineiras da modalidade. Colecionando vitórias e arrebatando títulos, a ADJF agora é referência não só dentro de quadra, mas fora, sendo requisitada para organização de disputas e auxílio na montagem de novas equipes de esportes diversos. Com tanta experiência, está pronta para dar passos maiores.

A história de sucesso da ADJF começa com a revolta de uma geração de jogadores locais, jovens de talento e bem-sucedidos nas competições que se viram presos a um jogo de interesses dos clubes. "A gente disputava uma competição por um time e ganhava o torneio. No ano seguinte, a vaga era daquela instituição. Mas aí trocavam a diretoria, não havia mais apoio ao handebol, a gente ia para outro clube e perdia o direito de jogar a competição maior para a qual havíamos nos classificado em quadra. Isso aconteceu durante vários anos. Jogamos por Tupi, Tupynambás, Sport, Bom Pastor e Granbery, para se ter ideia. Perdíamos chances de disputar, por exemplo, o Campeonato Brasileiro", conta um dos fundadores, ex-jogador e ex-presidente da ADJF, Cláudio Dias.

Assim, a alternativa pensada era vincular os atletas a uma entidade que não dependesse dos clubes, apenas oferecendo um time de handebol de alto nível a troco de espaço para treinar ou uso da estrutura da agremiação. Desta maneira surgiu a ADJF, que nem tinha esse nome no início. "A situação nos levou a criar a ADJF. No início, era Associação Ciranda do Esporte. Depois, um dos colaboradores mais antigos que temos, o Pompilho Guimarães, sugeriu colocarmos Juiz de Fora no nome e deixar mais ampla a ideia, não só focada no handebol. Acabamos bolando o nome que hoje existe. Isso foi em 1995. Registramos em 31 de outubro de 1996. Passamos um tempo sem estarmos ligados a clubes ou outras entidades e continuamos a chegar entre os primeiros e a ganhar", lembra Dias.

 

Sem patrocínio

O modelo organizacional da ADJF é simples: ajudou, está dentro. O orçamento é restrito, já que não há um patrocinador que invista pesado na associação. Porém, os atletas não precisam mais se preocupar em tirar do bolso o dinheiro para atuar nos torneios. "Somos uma entidade sem fins lucrativos, que não distribui nenhum tipo de renda a seus associados, de utilidade pública municipal e estadual", explica Dias. "Não há um aporte mensal, de patrocínio. Se organizamos alguma competição, fazemos uma arbitragem, recebemos por isso, e o dinheiro vai para um fundo que financia as participações em torneios, materiais necessários para treinos e jogos. Isso é muito sazonal, então fazemos uma espécie de poupança."

Mesmo com o fundo de reserva da entidade, por vezes o montante disponível não é suficiente para colocar o time em quadra, então sobra para a diretoria, como explica o atual presidente da ADJF, Guilherme Fácio. "Os atletas realmente há um bom tempo não têm despesas. E uma vez que extrapola os limites do que temos em caixa, sobra para os dirigentes ajudarem. Também fazemos broches, camisas, adesivos para vender, entre outras iniciativas, para complementar. Todos os atletas que passaram pela ADJF se tornam automaticamente sócios. Já são mais de 500. Os mais antigos também contribuem como podem, pagam alguma taxa, algumas inscrições e vamos indo", completa Dias.

Hoje a ADJF tem uma parceria com o Instituto Vianna Júnior, que oferece bolsas de estudos aos atletas da equipe. É uma forma de manter os jogadores na cidade enquanto estão em idade universitária e conceder um benefício aos atletas da associação.

 

 

Para alçar voos mais altos

Com dez títulos no handebol masculino e cinco no feminino dos extintos Jogos do Interior de Minas Gerais (Jimi), além de dez estaduais dos rapazes e seis das moças, o currículo de vitórias da ADJF em seus 17 anos de existência é de sucesso. Fruto de gerações talentosas e dedicadas ao trabalho, o domínio estadual faz o time sonhar com competições maiores, mas isso esbarra no financiamento e na falta de estrutura do município.

"A ambição não é largar o estado, mas nós já fizemos o máximo dentro de nossa estrutura", observa o treinador da associação, Carlos Dias. "Meu objetivo é jogar só evento nacional. Ganhar o Mineiro para poder disputar a Copa Brasil, por exemplo. As duas equipes estão nos Jogos Abertos Brasileiros (JABs), e um mês depois tem a Copa Brasil. Esses são os grandes objetivos. No masculino, temos a vaga na Liga Nacional ainda. Para jogar, precisamos de patrocínio, fundamentalmente, e o principal é ter uma estrutura melhor para desenvolver o trabalho. Conhecimento e atletas nós temos."

No fim do mês passado, a equipe feminina da ADJF terminou o Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão, disputado em Belém do Pará, em sexto lugar. Carlos acredita que esse desempenho pode melhorar, mas para isso é preciso melhorar a infraestrutura. "O único ginásio que comportaria jogos da Liga, por exemplo, aqui é o da Faculdade de Educação Física e Desportos (Faefid). Meu sonho é a ADJF ter um ginásio próprio para desenvolver times das categorias de base até o adulto", conta o técnico que hoje dá treinos entre três e quatro vezes por semana, sempre às terças e quintas-feiras, das 22h à meia-noite, aos sábados, a partir das 14h, e, quando preciso, aos domingos no mesmo horário, no Ginásio da Secretaria de Esporte e Lazer (SEL) em Santa Terezinha.

Embora com perspectivas para viabilizar a disputa da Liga Nacional Masculina em 2014, Cláudio Dias se diz inconformado com o desinteresse local na ADJF. "Este ano poderíamos ter disputado a Liga, mas a Confederação mudou o formato e coincidiu com as finais dos Jogos de Minas. Optamos por não ir e jogar a competição na qual teríamos chance de título, garantindo a presença nos Jogos Abertos Brasileiros (JABs) do ano que vem. Assim, não usamos o patrocínio que tínhamos acertado com a MRS de R$ 100 mil. Se tivermos novamente da empresa mais R$ 100 mil em 2014, podemos montar um grande time. Aprovamos mais uma vez um projeto na Lei de Incentivo ao Esporte do Governo federal, é a quinta vez que acontece, e vamos atrás de viabilizar isso. Em Juiz de Fora, o apoio financeiro é complicado e não entendo porque. Credibilidade, currículo, nós temos. Existem propostas para que joguemos competições nacionais por outras cidades do estado e, na nossa própria sede, muitas vezes, não conseguimos o dinheiro."

 

Novos rumos

Olhando para a frente, os projetos da ADJF são de melhorar o que já vem dando certo e abraçar outras modalidades, como já vem fazendo. "Queremos chegar à profissionalização, mas hoje não temos condições de, por exemplo, manter um time profissional de handebol às nossas custas. Então, precisamos de parcerias mais fortes. O basquete já vem sendo trabalhado na ADJF, mas a gente vê que as dificuldades são as mesmas para a maioria dos esportes", considera Fácio.

Para Dias, o ano de 2014 será decisivo para a associação. "Estamos no seguinte ponto: ou vai alavancar ou vai parar, porque as pessoas que levam à frente o sonho estão parando. Vamos fazer um pedido ao prefeito de uma área para que seja feita uma espécie de fundação de esporte de Juiz de Fora, onde você possa ter as principais modalidades. Handebol, basquete, skate, malha, taekwondo... pretendemos encampar isso tudo. Também daremos entrada no pedido para nos tornarmos uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Administrativamente, esse é o futuro que enxergamos para a ADJF."

 

Em quadra

Os times masculino e feminino da ADJF têm, hoje, a chance de encerrar 2013 com mais títulos. As equipes entram em quadra para disputar as finais do Campeonato Mineiro, a partir das 10h, no ginásio da UFJF.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você é a favor da proibição de rodeios em JF, conforme prevê projeto em tramitação na Câmara?