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12 de Julho de 2014 - 07:00

Por Wallace Mattos

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Então prefeito Itamar Franco fotografado com a taça
Então prefeito Itamar Franco fotografado com a taça

Os jogadores que representaram o Brasil nesta Copa do Mundo não vão ter chance nem de ver de perto a Taça Fifa, já que não estão na final que acontece neste domingpo (13), entre Alemanha e Argentina, às 17h, no Maracanã. Assim, não poderão sentir o gostinho que alguns juiz-foranos ilustres e anônimos tiveram em 1970, quando a Taça Jules Rimet, então prêmio máximo dado ao campeão da mais importante competição do futebol no planeta, esteve na cidade, em exposição no Museu Mariano Procópio, durante três dias, em meados de setembro.

Depois de o Brasil, que já havia ganhado o Mundial em 1954 e 1962, derrotar a Itália na final do dia 21 de julho de 1970, por 4 a 1, a Jules Rimet veio para o país em definitivo, como previa o regulamento da Fifa, que dava à primeira Seleção que conquistasse três Copas o direito de ter o troféu para sempre. Segundo os registros do arquivo histórico do Museu Mariano Procópio, baseados nas anotações da então diretora da entidade, Geralda Armond, os estudos e planejamento para uma exposição do objeto de desejo de todas as seleções que disputaram o torneio máximo do futebol até o tri brasileiro começaram ainda no mês da conquista, a pedido do então prefeito Itamar Franco.

Segundo o jornalista, radialista e militante do esporte juiz-forano Geraldo Magela Tavares, hoje com 87 anos e com 43 na época, a vinda da taça para Juiz de Fora foi intermediada no Rio de Janeiro pelo companheiro de profissão e também mineiro Canôr Simões Coelho. "Ele era representante da Federação Mineira junto à então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que mais tarde se tornaria a CBF. Sempre foi muito ligado à nossa cidade e principalmente ao Tupi. Foi uma homenagem que o Canôr fez aos juiz-foranos, de certa forma", recorda-se.

 

Três dias

Nos registros do arquivo histórico do Museu estão descritos os eventos que cercaram a chegada da taça a Juiz de Fora. A Jules Rimet desembarcou na cidade no dia 16 de setembro de 1970. No primeiro dia, somente convidados e autoridades civis e militares puderam apreciar sua beleza. Exposta em um mobiliário de madeira com laterais e tampo em vidro, a peça foi levada ao local no qual ficaria nos próximos dois dias, o Salão Luiz XV - em homenagem ao francês que dava nome ao troféu e a seu criador e conterrâneo, Abel Lafleur -, pelo então prefeito Itamar Franco.

A solenidade na chegada da Jules Rimet teve acendimento do fogo simbólico nos jardins do Museu, exibição da banda de música do 10º Regimento de Infantaria do Exército Brasileiro e um coquetel para os presentes. No dia seguinte, 17 de setembro de 1970, a exposição foi aberta à visitação pública e, para completar a exibição, também fizeram parte da mostra fotos, medalhas e troféus do acervo da entidade, com destaque para as conquistas esportivas de Mariano Procópio e Miguel Cautieiro.

Magela lembra da grande movimentação e interesse gerado pela taça. Pelos números registrados no arquivo do Museu em agosto e setembro de 1970 é possível perceber o impacto da Jules Rimet na visitação do local. Enquanto no mês anterior à exposição do troféu foram registradas 7 mil visitas, no seguinte 12.500 pessoas compareceram ao Mariano Procópio. "Foi uma movimentação grande. Todos queriam ver a taça. Fui lá para visitar e ver de perto. Era um ouro muito reluzente, bonito. Dava vontade de tocá-la, mas não podia. Depois, deixaram roubá-la", lamenta Geraldo, sobre o célebre crime ocorrido mais de dez anos depois, no Rio.

 

 

Taça acabou roubada 13 anos depois

Se a visita da Taça Jules Rimet a Juiz de Fora foi marcante para a cidade, seu roubo e posterior derretimento chocou o país do futebol anos depois. No fim de 1983, o orgulho nacional materializado em forma de troféu foi retirado da sede da CBF, no Rio de Janeiro. O sumiço ainda não foi totalmente explicado até hoje, e nenhum dos apontados pelas investigações como envolvidos passou muito tempo na cadeia. A Jules Rimet original, criada em 1928 por Abel Lafleur e que, em 1946, ganhou o nome do presidente da Fifa na época, era uma estatueta de cerca de 35cm de altura e 3,8kg de ouro puro, com base em mármore, e era exibida em uma caixa composta por vidro a prova de balas, mas com moldura que a fixava na parede em madeira. Enquanto isso, uma réplica era mantida guardada no cofre da entidade máxima do futebol brasileiro.

Os ladrões retiraram a base de picaretas a moldura de madeira, e a taça foi levada juntamente com outros três troféus. Depois de meses de investigação, a polícia chegou aos criminosos após a delação de Antônio Setta, morto em 1985 de ataque cardíaco, que participaria do roubo, mas desistiu. Em 1988, três apontados como participantes do crime foram condenados a nove anos de prisão. Já o argentino Juan Carlos Hernandez, acusado de ter derretido a Jules Rimet, pegou pena de três anos. Enquanto recorria em liberdade, Francisco Rivera, o Chico Barbudo, foi assassinado, em 1989. Em 1994, Sérgio Ayres, o Peralta, foi preso após anos foragido, ficou dois anos na cadeia, saiu e, em 2003, morreu de infarto.

José Luiz da Silva, o Bigode, foi encontrado após denúncia anônima em 1995, cumpriu pena por três anos até ganhar liberdade condicional. Hernandez, que vivia ilegalmente no Brasil, nunca esteve preso por ter derretido a taça, mas foi capturado em 1998 por tráfico de drogas. Depois de sete anos, foi libertado. O ouro resultado do derretimento e o cheque que os bandidos tinham pela venda do material não foram encontrados. No ano seguinte ao roubo, restou à CBF acolher uma réplica oferecida pela Fifa, feita na Alemanha. É este troféu que está em exibição na sala de conquistas da sede da entidade atualmente.

 

Segunda vez

O roubo no Brasil que resultou no derretimento da Jules Rimet não foi o primeiro desta taça. Também sob a tutela do Brasil, campeão em 1962, o troféu já havia sido furtado de uma exposição em Londres, capital da Inglaterra, em 1966. Um homem identificado como Jackson - na verdade o ex-soldado Edward Betchley - pediu um resgate de 15 mil libras para devolver o objeto. Ao ser preso por um policial disfarçado no momento que pegaria a quantia, o chantagista disse que trabalhava para outra pessoa, que nunca teve sua existência comprovada.

Ainda enquanto Betchley era interrogado, um cãozinho chamado Pickles se tornou o herói dessa história, encontrando a taça em um jardim no subúrbio de Londres. O cachorro foi reverenciado, apareceu em programas de televisão, estrelou um filme e ganhou um ano de ração grátis. Morreu em 1967. Já o chantagista passou dois anos preso por extorsão, antes de falecer. Depois do roubo no Brasil, foi criada a Taça Fifa, que atualmente é entregue ao campeão da Copa do Mundo após a final, mas não fica com os vencedores - e nem há previsão de número de conquistas para que isso aconteça. A federação vencedora recebe uma réplica do troféu original, que permanece em poder da entidade máxima do futebol.

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