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18 de Maio de 2014 - 06:00

ENTREVISTA / Marcelo Van Gasse, árbitro

Por WALLACE MATTOS

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A história de um garoto que sonhava em ser jogador de futebol, ama o esporte e vai participar de uma Copa do Mundo não chega a ser incomum em um país como o Brasil, mas a maneira que isso aconteceu para o professor de educação física formado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Marcelo Van Gasse, de 38 anos, é que chama a atenção. Árbitro assistente da Federação Paulista de Futebol (FPF) há 14 anos e desde 2003 no quadro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ele recebeu o escudo da Federação Internacional de Futebol Association (Fifa) em 2011.

No último ano, Marcelo foi pré-selecionado para ser um dos componentes do segundo conjunto brasileiro de árbitros indicados para o Mundial, espécie de reservas. Mas, em janeiro, um e-mail o colocava, ao lado do árbitro do Distrito Federal, Sandro Meira Ricci, e do colega de FPF, Emerson Augusto de Carvalho, como componente do conjunto brasileiro que apitaria na Copa. Faltava apenas passar no último teste da Fifa, e isso aconteceu em abril, garantindo a presença deste juiz-forano por adoção entre os 75 juízes e bandeirinha dos 25 trios de arbitragem que vão dirigir as partidas do Mundial que começa no dia 12 de junho, em São Paulo.

Nesta entrevista exclusiva à Tribuna, Van Gasse, nascido em Valença, interior do Rio de Janeiro, e que adotou Juiz de Fora há 15 anos como sua terra, fala de sua expectativas sobre a Copa do Mundo, mas, mesmo ligado na competição, não se esquece que a vida de um árbitro se mede a cada 90 minutos e nem deixa de expressar alegria e gratidão a quem o apoiou até a chegada ao topo de sua carreira. "Minha Copa do Mundo é essa. Aliás, é Grêmio x Fluminense, meu último jogo antes da Copa, neste domingo, em Porto Alegre. Sabe como é, o árbitro vive de jogo em jogo. Estou muito feliz e grato à minha família, à cidade de Juiz de Fora e ao apoio de todos que me deram essa oportunidade. É um sonho se realizando. Teve uma Copa aqui em 50 e essa agora, sabe-se lá quando terá outra. Então, vou poder dizer que, na minha geração, participei de uma Copa no Brasil, isso me enche de orgulho."

E antes do início da concentração final dos árbitros, que começa no dia 1º de junho, no Rio de Janeiro, na qual irá mergulhar de verdade na Copa, Marcelo tem compromisso com pessoas importantes: a esposa Eliana - a quem atribui a conquista do escudo da Fifa - e os filhos João Pedro, de 5 anos, e Pedro Henrique, 13. Mesmo assim, o Mundial não ficará completamente de lado. "Vou procurar descansar, curtir a família e, depois desse último jogo do Brasileiro, espairecer um pouquinho de futebol. Foi até uma recomendação da Fifa para nós que vamos estar na Copa. Mas vou continuar treinando fisicamente. Não posso machucar e tenho que chegar bem fisicamente na competição."

 

Tribuna - Olhando para trás, em sua carreira na arbitragem, lá no começo, você imaginava estar em uma Copa do Mundo?

Marcelo Van Gasse - Sendo sincero, não. Primeiro, não pensava em ser árbitro. Quando me formei em educação física, a arbitragem veio em conjunto, meio por acaso. Apareceu a oportunidade de fazer o curso, e fiz mais pela minha profissão. Quando comecei a fazer o curso, imaginava fazer um jogo do Campeonato Paulista, federação na qual me formei e sou filiado. O sonho era fazer um grande clássico em São Paulo. Mas as coisas foram acontecendo, o degrau vai aumentando, entrei para o quadro nacional e sonhava em fazer grandes jogos do Brasileiro. Fiz finais de Copa do Brasil, rodadas decisivas de Brasileirão, entrei para a o quadro da Fifa, e passei a querer fazer os grandes clássicos sul-americanos. A coisa foi acontecendo, fui convidado para fazer o Mundial sub-17 de 2013, as portas e a cabeça foram se abrindo, e aí surgiu o pensamento de fazer uma Copa do Mundo. Tive essa oportunidade, estou muito contente e espero fazer um grande trabalho a partir do dia 1º de junho.

 

- Como foi o teste final, que o colocou para valer na Copa do Mundo de 2014?

- Viajamos para Zurique, na Suíça, no dia 4 de abril, e escolhemos passar um dia na França para aliviar a cabeça da pressão do teste. Me concentrei bastante, pois a prioridade era passar no teste físico. Se não acontecesse, perderia tudo o que fiz durante o último ano, perderia a Copa do Mundo. Fiquei sem dormir, acordei às 5h pensando no teste, tudo isso. Mas tinha feito uma boa preparação em Juiz de Fora. Me alimentava muito bem, mantive isso nos dias no exterior para que o pré-teste não pesasse na hora. Na hora do teste mesmo, pensei em todos os testes que já havia feito em minha carreira, nos jogos e, principalmente na minha família. Fiz minha parte e, graça a Deus, passei muito bem. Aliás, o trio brasileiro passou muito bem nas provas da Fifa.

 

- Quantas quais partidas gostaria de participar desta Copa? Como imagina que será sua trajetória na competição?

- Penso primeiro em ser escalado na primeira rodada, foco na primeira partida. Têm grandes jogos já nessa fase inicial. Alemanha e Portugal é um deles. Mas estamos na mão de quem escala. A importância do primeiro jogo para o trio brasileiro é muito grande. Se não formos bem, deixamos de ser escalados. Não há vantagem nenhuma em ser o trio da casa. Essa vantagem será conquistada indo bem nas partidas. Se isso acontecer, vai haver um próximo. Então não importa o confronto que venha para a gente, estamos prontos para dirigir uma partida em grande nível. Todas as seleções que estarão aqui se prepararam quatro anos e se qualificaram para virem ao Mundial, e o árbitro também. Não podemos escolher e temos que mostrar serviço em qualquer que seja a escala.

 

- Em quais partidas o trio brasileiro não pode atuar?

- Não podemos atuar nos jogos do Brasil, com certeza, e há uma busca por neutralidade de continente. A não ser que joguem, por exemplo, Uruguai e Argentina. Nesse caso, poderíamos ser nós, brasileiros, a sermos escalados. Se for um time sul-americano contra um europeu, normalmente eles não colocam. Podem até colocar, mas não é praxe.

 

- Como é sua relação com os outros integrantes do trio brasileiro da Copa do Mundo?

- Já conhecia o Emerson porque ele é da minha federação. Mas o Sandro, de todos os torneios internacionais que participei - foram cinco -, quatro fui com ele. Então, temos uma rotina muito boa, amizade até mesmo de família com ambos. Trabalhamos juntos e, se a coisa flui nesse sentido de todos quererem que dê certo, ela dá. Estamos colhendo os frutos disso. Fazemos partidas boas e partidas ruins, faz parte. Mas nos falamos o tempo todo, nos corrigimos. Hoje, com a tecnologia, quando temos algum problema em alguma partida, nos falamos para aprimorar. Nesse sentido, estamos bem entrosados e sabemos que os três vão para fazer o melhor. O que vai acontecer está na mão de Deus. Temos que contar também com um pouco de sorte, mas a competência, nós temos. Estamos preparados para trabalhar.

 

- Como será a programação para os árbitros e assistentes da Copa a partir do dia 1º de junho?

- Nos encontraremos no Rio de Janeiro, onde será a concentração da arbitragem. Todos os árbitros do mundo todo estarão baseados lá. Faremos dias de treinamento, tanto na parte técnica, como na parte física e na psicológica. Será um grande seminário de como se quer que o árbitro atue em uma Copa do Mundo. É mais ou menos uma lavagem cerebral para chegar no dia 12 de junho, no dia da estreia, e sair tudo bem. Vamos saber nesse período o que a Fifa quer para a sua arbitragem, como ela deve ser conduzida de 2014 em diante. A Copa serve de espelho para o futuro, mostrando o que deve ser exigido dali para a frente.

 

- O que você espera da Copa do Mundo em termos de arbitragem e o que envolve o evento?

- Espero receber muito bem os trios estrangeiros, pois somos os árbitros da casa, então seremos cicerones dos demais. Na concentração, no Rio, vamos conviver 24 horas com todos. Então, queremos que eles se sintam bem aqui. Acho que não podemos perder essa oportunidade de mostrar o quanto o Brasil é grande. Que tem seus defeitos, mas está em franca evolução para melhorar. Somos o país do futebol, vivenciamos esse esporte, e desejo que recebamos bem todos que vêm aqui para a Copa. O mundo inteiro vai estar com os olhos voltados para nós.

 

- De que forma a Copa pode mudar sua carreira?

- Para minha carreira, a Copa é o topo. Cheguei ao máximo que um árbitro pode chegar. Então só tenho a agradecer a arbitragem. Cresci como ser humano, conheço praticamente toda a América do Sul por conta disso, o Brasil todo, e fui sugando e aprendendo um pouquinho em cada lugar, trazendo para minha personalidade. A Copa é uma coisa nova, talvez possa responder melhor depois dela, mas vou procurar aproveitar o máximo dos outros árbitros para me tornar melhor. Acho que é para isso que viemos ao mundo, para aprender e evoluir. Estou muito feliz.

 

- Qual a diferença de um jogo normal, de outras competições de clubes, para um jogo de seleção?

- A diferença é a organização da Fifa. Os árbitros estão preocupados apenas em dirigir a partida, nada mais. No Brasileiro, por exemplo, é um pouco diferente. Você tem que tomar conta do gandula, do policiamento, da ambulância. Isso, nos torneios da Fifa, não tem e é um facilitador, além de serem os melhores jogadores do mundo. O tal do fair play da Fifa aparece mesmo no campo de jogo. Claro que há reclamação, mas é mais amena, e eles têm um respeito com o árbitro muito grande. Até porque sabem que se as muitas câmeras hoje nos estádios pegarem algo, serão punidos exemplarmente. A condução da partida é diferente. Mas não foge da regra: se quiser ir bem em uma Copa do Mundo, a arbitragem tem que acertar, não tem outro jeito.

 

- Além de ver seus próprios jogos para análise técnica, você costuma acompanhar outras partidas? Acha que isso é bom para os árbitros ou essas informações e acompanhamento causam uma pressão extra na arbitragem?

- Quanto mais informação o árbitro tiver em um campo de jogo, melhor. É um facilitador para ele. Tem que ver jogo sim, acompanhar como jogam as equipes. Hoje com a tecnologia, todo mundo tem acesso a praticamente tudo. Não dá para fugir. Tem que pegar essas informações e fazer o melhor com elas para a arbitragem. A Fifa pede isso, diz: coma futebol. Porque, na Copa, faremos jogos de atletas do mundo inteiro. Quanto mais você estiver vendo esses jogadores atuarem, as seleções atuarem, é melhor para o árbitro que não será pego de surpresa por nenhuma artimanha, por exemplo. Temos frações de segundo para decidir e, nessa hora, quanto mais informação para tomar essa decisão, melhor.

 

- Você participa do momento mais profissional que um árbitro pode ter, que é uma Copa do Mundo. Falta essa profissionalização no futebol brasileiro?

- A profissão de árbitro foi reconhecida há pouco tempo. E a estrutura para o árbitro precisa mesmo melhorar no Brasil. Hoje é um amador em um campo de jogo. Mas não gosto muito de falar disso porque me dediquei 100% como um profissional sem ser e deu certo para mim. O que tiro de lição é que, quando você gosta de algo, quer que ele aconteça, faça o melhor para você. Não fique esperando alguém fazer para você. Eu sou a prova viva disso. Me dediquei, ia fazer o curso em São Paulo, com o meu dinheiro. A parte de preparação física, alimentação, é tudo comigo. Mas não é o que eu quero? Então tenho que fazer por mim. Sou grato à arbitragem brasileira também. É tudo um conjunto. A CBF já melhorou de como era quando comecei, e a tendência é melhorar mais, evoluir para ser profissional. E exemplos como meu caso influenciam nesse sentido.

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