Dentes podres e mau hálito
A ditadura do politicamente correto está drenando lentamente a graça de tudo. Não a "gracinha" das coisas, de sentido cômico... a graça no sentido da leveza conferida pela autenticidade das coisas. Qualquer frase ou expressão ou palavra ou grunhido que saia do padrão do absolutamente inócuo torna o emissor alvo da polícia política da caretice - essa raça cretina que não veste uniforme mas se amarra num pau de arara verbal.
Não é questão de aceitar qualquer barbaridade como direito à liberdade de expressão, mas de fazer a defesa pelo menos da espontaneidade. As pessoas podem ser autênticas sem ser autênticas babacas, ou não? A coisa chegou num grau tão grande de absurdo, muito por culpa dos meus coleguinhas de profissão e sua busca esfomeada por polêmicas - porque notícias já não bastam mais -, que nem dentro de campo os jogadores podem falar à vontade entre si. Já reparou como agora eles conversam com a mão sobre a boca, como se estivessem escondendo dentes podres e mau hálito? O que fede, no entanto, não está ali.
Acontece que, na falta de atos e declarações "escandalosas", reduzidas ao mínimo graças à patrulha ideológica do DOI-Codi desestatizado, o pessoal deu para fazer a deplorável leitura labial. Deplorável porque perdeu seu sentido quando passou a devassar as relações dentro do campo de jogo e, mais de uma vez, até a intimidade do diálogo descontraído entre colegas de profissão. Uma chatice ilimitada.
É nesse cenário que fazem falta os rebeldes autênticos. Os Romários. Os Túlios. Os Renatos Gaúchos. Os Dadás. Os Cantonas. Esse pessoal que falava o que desse na telha, num tempo em que nem todo mundo se sentia mortalmente ofendido. Se levavam o troco, era do desafeto, e não de uma Gestapo linguaruda reencarnada por voluntários desocupados.
E é nesse mesmo sentido que fará falta o Chorão, maloqueiro, roqueiro, rapeiro e skatista que acaba de deixar ainda mais pobre o já inofensivo rock do Brasil.



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