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13 de Março de 2014 - 06:00

Por WENDELL GUIDUCCI

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Leôncio e o italiano

Era tarde de domingo e tinha rodada do varzeano. O pessoal todo estava ali em volta do campo, em cima do barranco, atrás dos gols, em volta da bica, na barraquinha que vendia cachaça e doce de leite. Quem contou não lembra bem se o ocorrido tomou lugar no primeiro ou no segundo quadro, mas pouco importa. O negócio é que toda hora que o Leôncio, um negro forte pra burro, pegava na bola, um italiano de bigode amarelo, olhos verdes e dentes pretos berrava da ribanceira "Dá nesse tição! Quebra esse crioulo fedorento!" e impropérios similares.

Passava batido pelo povo, mas Leôncio não gostava. Mas também não retrucava. Só olhava feio para a ribanceira, sem falar um a. E assim foi o jogo inteiro, "macaco", "preto sujo", "tiziu", "nego fedido", "urubu"... e o Leôncio só olhava para o homem de bigode ralo e boca desdentada.

À noite, o italiano desfiava seu fumo de rolo na varanda de casa quando o "tição" entrou de bicicleta pela porteira. Antes que o branquelo pudesse se levantar, passou da porta para fora uma italiana encorpada e de cabelos castanhos. Parado feito estaca ao pé da escada, o louro só fez observar enquanto a irmã subia na garupa da Caloi Barra Forte. Leôncio, com o mesmo olhar firme do campo de jogo, só ergueu o chapéu com o polegar, meneou a cabeça e disse: "Trago ela de volta às oito". Pedalou porteira afora e voltou às sete e cinquenta.

Dizem que anos depois tiveram quatro filhos, e a caçula era a coisa mais linda que já caminhara por aquelas bandas, de pele morena e olhos verdes faiscantes. Iguaizinhos aos do tio quando criança.

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