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08 de Maio de 2014 - 06:00

Por RENATA DELAGE

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A culpa não é da bola!

Acrítica é mais do que legítima. Mas o mau hábito de criticar tudo me soa como ignorância. Escalada esta semana para preencher as linhas reservadas ao nosso editor Wendell Guiducci - haja responsabilidade! -, que está em férias, gostaria de poder falar das contratações do meu Tupi, ou da fase conturbada do meu outro Alvinegro, aquele da estrela solitária e que mais cedeu jogadores à Seleção, ou ainda das perspectivas para o hexa. Mas o que mais me inquieta ultimamente em relação a esse apaixonante, por vezes ingrato, mundo da bola é a constante e inveterada reclamação.

Não me refiro apenas aos pensadores de Twitter e filósofos de Facebook. Às vésperas do mundial, alguns jornalistas deram para atacar o voluntariado durante a Copa do Mundo, rotulando-o quase como uma espécie de trabalho escravo. O interessante seria pensar em voluntários com carteira assinada, ora. Até pouco tempo, todo mundo achava louvável. Sortudo daquele que tem tempo livre para se dedicar ao evento! Parece que o problema está no fato de o mundial acontecer no Brasil, já que tudo que é nosso parece ser pior do que em qualquer outro lugar do planeta.

Não me orgulho do "jeitinho brasileiro", que exalta uma cultura de pilantras, nem de ter nascido no mesmo país que protótipos de torcedores, que arremessam vasos sanitários das arquibancadas. Quando vi - em loco - a presidente ser vaiada na abertura da Copa das Confederações, fiquei envergonhada. Não votei nela, mas me parecia que o silêncio, nada de vaias ou aplausos, seria um bom ato de protesto para a ocasião, e mais educado também. Me orgulho de ser reconhecida como parte de um povo acolhedor, que tem como filhos Pelé, Garrincha e companhia, que faz, sim, do futebol religião.

Na última semana, a bendita banana "degustada" pelo nosso lateral Daniel Alves virou alvo de mil especulações. O fato de o slogan da campanha ter sido bolado por publicitários foi visto por muitos como um crime, "uma manipulação das massas". Por favor, se a campanha conseguiu chamar a atenção para o quão abominável é o racismo, cumpriu seu papel. Grande sacada, na minha opinião, que em nada invalida a mensagem.

Oportuno para aqueles que nunca assistiram a uma partida de futebol na vida encherem o peito para dizer que não vai ter Copa. Grande ato de protesto não assistir a mais uma... Bacana hostilizar narradores e repórteres da Globo - "aquela alienadora", dizem - nos estádios e ir para casa votar no paredão do Big Brother. Ok, não gosto da narração do Galvão, por isso mudo de canal. Ainda mais curioso é bradar que os estádios da Copa custaram uma fortuna, engolida pelos políticos, e reeleger corruptos.

A última? Criticar a lista dos convocados, ontem, pelo Felipão pela surpresa de não haver surpresas, já que as chances de entrar em campo do tal quarto zagueiro, o Henrique - o único que pôde saciar a sede de crítica -, são um tanto remotas. Sem teorias da conspiração, sem bairrismos. Vou torcer para que o Neymar seja o melhor jogador do Mundial, namore ele ou não qualquer atriz global; vou torcer para o Fred ser o artilheiro, mesmo ele sendo um carrasco para o meu time; vou torcer para o Júlio César catar como nunca, ainda que meu preferido, claro, seja o Jefferson. Finalmente, vou torcer para o Brasil ser hexa, votando ou não, em outubro, para que o país siga outros rumos. Prefiro acreditar que somos livres - e inteligentes - o bastante para deixar o futebol em uma estante de destaque, mas pra lá de isolada.

*Wendell Guiducci volta a escrever neste espaço em junho

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