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22 de Maio de 2014 - 06:00

Por MARISE BAESSO

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Quem poderia imaginar que, faltando menos de um mês para a tão sonhada Copa do Mundo no Brasil, o clima não fosse o de uma empolgação extasiante do povo numa "corrente pra frente, com todos ligados na mesma emoção", como ocorreu em 1970, quando a Seleção Brasileira era composta por um luxuoso elenco, do qual faziam parte Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson e muitos outros. Voltar a 1970, parece-me primordial neste 2014. Primordial para que os erros não se repitam, para que o sonho se realize.

Não queremos o 1970 da ditadura militar, quando o país tinha seu presidente mais truculento e linha dura do regime, o general Emílio Garrastazu Médici. Enquanto nas celas, presos eram torturados e mortos e pessoas desapareciam ou viviam na clandestinidade, na televisão e pelo país afora, o que se via era uma nação do desenvolvimento e feliz. Naquele ano de 1970, enquanto havia empolgação de um lado, guerrilheiros participavam de atos extremos de outro, como o sequestro do cônsul japonês Nabuo Okushi, para que companheiros presos fossem soltos.

Também não queremos o 1970 de mudanças de última hora, quando a Seleção Brasileira viu o técnico João Saldanha ser substituído, antes de embarcar para o México, por Mario Jorge Lobo Zagallo. Saldanha teria ficado indignado com o fato de Médici querer interferir na escalação, chamando Dario, o Dadá Maravilha, para a equipe. O técnico teria respondido: "O presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time." O episódio teria sido a gota d'água para a saída de Saldanha, que, na verdade, seria simpatizante do Partido Comunista do Brasil (PCB).

Que não se apaguem de nossas memórias as lições de 1970 para sabermos aquilo que não queremos mais. Mas o Brasil de 2014 também tem nos surpreendido. Ninguém sabe o tipo de emoção que virá. Ao invés de empolgação e "todos ligados na mesma emoção" - como lógico, não deveria ser mesmo -, temos visto pessoas que cobram melhorias na saúde, na educação e nas condições de vida e que participam de protestos e denunciam suas indignações. Isso é ótimo quando voltamos no tempo e chamamos de alienantes aqueles momentos de "Pra frente, Brasil".

Mas, se naquela ocasião, a Copa foi usada politicamente de forma positiva para a imagem do país no mundo e de maneira alienante para milhões de brasileiros, agora, novamente, a Copa tem sido usada, só que como senhora de todos os problemas. Pobres inocentes que achávamos que assim não seria, quando sempre foi assim na nossa história e na história de outros países.

Então, se a Copa é mesmo uma arena para lutas ou afirmações políticas, é preciso perceber até onde vão as cobranças legítimas, onde está o sentimento de cidadão e onde começa a violência sem sentido. Não queremos o oba-oba de 70, mas também não torcemos para que tudo dê errado. Não queremos o fracasso da Seleção Canarinho, ainda que nosso elenco não seja tão luxuoso quanto aquele comandado por Pelé. Mas temos astros, como Neymar e Fred, e o nosso David Luiz.

Mas, se há alguma coisa que torcemos para que se repita de 1970, é o grito na final de 13 de julho, em um Maracanã lotado. Queremos o grito, não o de tri daquele 21 de junho de 1970, ano de chumbo, sobre a Itália, em um 4x1, na Cidade do México, mas o de hexa, com qualquer placar, em um Rio de Janeiro cheio de defeitos e que precisa de mais educação, saúde e cidadania sim, assim como todo o país. Mas mesmo assim queremos soltar este grito do hexa. E que vença o esporte, não o alienante, mas o da pluralidade. Vai lá, Brasil!!!

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