Dizem que o futebol é o ópio do povo. Não concordo com essa teoria. Acredito que o querido "esporte bretão", como manifestação popular, tem valor cultural impossível de ser mensurado e, por isso, é razão de estudos nas mais diversas ciências. Mas em um aspecto essa frase pode ser considerada verdadeira: assim como ópio, o futebol causa dependência.
Nessa época do ano, todo viciado em futebol, como eu, demonstra sintomas claros de abstinência. A ausência da resenha esportiva com os amigos causa irritabilidade e mau humor. Não há campeonato europeu que satisfaça a vontade de assistir a um bom jogo do Brasileirão. Até porque não existe zoação após uma goleada do Manchester City. Uso como alternativa os jogos da Copinha, mas a maioria é de uma correria acéfala de fazer inveja a qualquer pelada de bairro. Só Deus sabe como sofro nessa época. Eu acho que é a fissura futebolística coletiva que faz com que os cartolas coloquem todos os campeonatos de seleções sub-qualquer coisa em janeiro. Sempre que possível, eu assisto.
Meu último tique nervoso é conferir mentalmente as possibilidades do meu time no ano que vai começar. Isso mesmo, antes de dormir, imagino escalação, pontos fracos e jogadores disponíveis no mercado. No fim da contas, a única coisa que eu ganho com isso é uma insônia, mais um sintoma da minha síndrome. Às vezes penso: será que só eu que sofro com isso? Acho que não.
Renato Salles volta a escrever neste espaço em março



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