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30 de Maio de 2014 - 14:36

Por RENATO SALLES

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Era a Copa de 2006. O Brasil tinha um quadrado "mágico" formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. O quarteto dava a 11 de cada 11 brasileiros a certeza do hexa. Aquele Mundial estava no papo de véspera. Aos torcedores, só restava comemorar. No dia 13 de junho, dia da estreia da Seleção contra a Croácia, acordei com meu celular esgoelando embaixo do travesseiro. Não existia "zapzap" naquela época, e as pessoas ligavam umas para as outras. Atendo o telefone pensando no dia anterior. O sono ainda era preponderante na minha mente preguiçosa. Do outro lado da linha, um "zumzumzum" danado. "Ô, Renatinho! Vem para o Porão! Está todo mundo aqui!"

O Porão era um bar que existia na Rua Santo Antônio. Lá não tinha wi-fi. Era engraçado. As pessoas conversavam entre si. Aliás, muitos ainda debatem nesse porão que insiste em permanecer aberto nas noitadas de minha nostalgia. Ainda sonolento, não me furtei à convocação. Pulei da cama. Só me lembro de ter escovado os dentes pelo gosto amargo que restou no "nescau" do desjejum. Depois de um banho de gato, quase tudo pronto para sair de casa, surge o dilema: "Mãe! Cadê minha camisa do Brasil?"

Foi aquele alvoroço. Com a pressa de quem não pode perder a resenha antes de a bola rolar para uma Copa do Mundo, deixei minha velha enlouquecida. "Pô, mãe, você jogou minha camisa do Brasil fora? Logo aquela do penta de 2002?" A coitada jurava que a culpa não era dela - e não devia ser mesmo - e saiu a procura de uma velha camisa amarela, já cansada das madrugadas do Mundial Japão/Coreia. Com a casa de cabeça para baixo, a verdade era inequívoca: aquela amarelinha, número 9 do Ronaldo Cascão, tinha virado fumaça. E agora? Como eu poderia chegar no tal Porão despido da cintura para cima?

Foi meu lado meio maluco o responsável pela solução do dilema. Já que a "verdeamarela" havia sumido, resolvi improvisar um uniforme... da Croácia! Com uma camiseta branca e vários quadrados de cartolina vermelha, cheguei ao Porão com o nome "Renatovic", às costas de um padrão que mais parecia uma mesa de cantina italiana. Para não perder a piada, torci, em vão, contra o Brasil. Acabei silenciado por um golaço de Kaká, 1 a 0. Apesar de acabrunhado, o tal "Renatovic" guardava um sorriso no canto do rosto que só se cerrou de vez quando Henry foi mais ligeiro que o meião do Roberto Carlos, decretando a eliminação daquele time de papel.

Passados oito anos, aqui, no Brasil, a Seleção vai estrear em um Copa novamente contra a Croácia. Dessa vez, sem o tal "Renatovic", que ficou para trás, lá no Porão, a procura da camisa do Ronaldo Cascão. É que ele aprendeu que torcer contra não vale nem por brincadeira.

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