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08 de Julho de 2014 - 06:00

Por RENATA DELAGE

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Meu irmão, ao contrário de mim, nunca assistiu a uma partida de futebol. Não me recordo, sinceramente, que tenha se sentado em frente à TV para ver a bola rolar por 45 minutos sequer, nem mesmo nas Copas do Mundo. A reclamação frequente em suas visitas, aos domingos, é como meu pai e eu conseguimos pular de uma campeonato para o outro das dez da manhã às oito da noite.

Qual não foi a minha surpresa ao vê-lo, pela primeira vez, usando a amarelinha e apelando para que qualquer santo ajudasse a fechar o gol do Brasil na fatídica disputa de pênaltis contra o Chile, como se sua vida dependesse disso. Comentários dos mais entendidos também andam saindo com frequência da sua boca. "Esse Daniel Alves leva bola nas costas toda hora" ou, ainda, "Nosso meio de campo está perdido, só tem ligação direta". Acompanha cada jogo que pode, sabe a tabela de cor, fez questão de ir à Fan Fest em Copacabana - pois é privilegiado de morar no Rio - participar da torcida.

Talvez, como quase todo brasileiro, ele esteja inflado com aquele orgulho de dizer para o mundo: "Está gostando? Fui eu que fiz". Foi essa satisfação genuína que vi nos olhos de cada morador dos lugares por onde andei nos últimos dias, Rio, Cuiabá e Brasília. Se dentro de campo - contradizendo o que estamos nos habituando, a duras penas, a ver - vence aquele que se recusa a só se defender, a bola rola mais do que fica parada, e os jogadores não querem deixar o campo ainda que machucados, fora dele, torcedores legitimam o título, por mais piegas que seja, "espetáculo".

Eles gritam incentivos a todo tempo, sentam-se lado a lado com seus adversários e riem a cada lance de perigo, fazem questão de registrar o encontro com os rivais - principalmente com os mais exóticos -, não aceitam desculpas para um zero a zero. Choram sim, com a eliminação precoce, mas acho que só o fazem porque não querem voltar pra casa. Vi chilenos, australianos, russos, coreanos, franceses e nigerianos ignorando quaisquer chances reais de título para simples e puramente torcer.

Se, como dizem, o torcedor que vem lotando os estádios ou, como o meu irmão, anda participando de tudo sem o fanatismo irracional e impregnado, não é o mesmo que acompanha o futebol no dia a dia, não tenho dúvidas de que o melhor caminho seria aprendermos com os primeiros como se faz.

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