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09 de Julho de 2014 - 06:00

Por JÚLIO BLACK

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Louis Van Gaal não é dos sujeitos mais amados no mundo do futebol. Para muitos, sua personalidade forte (para não dizer ego imenso) rivaliza com o de outros treinadores que acreditam estar em um patamar superior ao dos reles mortais, independente de terem maior (José Mourinho) ou menor (Fabio Capello e Vanderlei Luxemburgo) sucesso comandando suas esquadras. Arrumar confusão com talentos brasileiros (Rivaldo e Lúcio) ou italianos (Luca Toni) mostra um pouco da personalidade de quem parece pensar que jogadores de futebol são macacos amestrados por mestres estrategistas, mas a decisão de trocar o goleiro da seleção da Holanda para a cobrança de pênaltis contra a Costa Rica, no sábado, pela Copa do Mundo, mostra que o sujeito - a despeito de seus inúmeros defeitos - tem coragem e personalidade para bancar desafios.

A decisão, que se mostrou acertada ao final, dividiu a crítica: seria um gênio? Um maluco? Um exibicionista? Para este repórter, Van Gaal continua a ser um ególatra competente (a sua contratação para treinar o Manchester United é prova de que seu trabalho é reconhecido), mas sua decisão de trocar Cillessen pelo gigante Krul (que defendeu dois pênaltis) poderia muito bem ser o princípio de uma saudável mudança na forma de se enxergar o futebol, até mesmo tornando-o mais dinâmico. O que se vê, hoje, devido ao limite de meras três substituições, é uma equipe condenada a abraçar um determinado esquema tático e, dependendo do transcorrer do jogo, promover alterações que não podem mais ser revertidas. Por isso, a meu ver, a ousadia do holandês marrento levanta a utópica questão: e se o futebol pudesse ter substituições infinitas?

Outros esportes mostram como a dinâmica de uma peleja pode ser mudada devido a esse artifício. Um deles é o beisebol, que aos poucos vai angariando seus fãs pelo país. Para quem não conhece, determinados jogadores possuem características diferentes mesmo atuando na mesma posição. É o caso do arremessador (pitcher): uma equipe costuma usar, em média, pelo menos três atletas na posição, com o titular fazendo uma média de cem arremessos por jogo, o que costuma dar cinco ou seis entradas (de um total mínimo de nove). Na sequência, outro atleta costuma fazer cerca de 40 ou 50 lançamentos até a entrada do closer pitcher, responsável por garantir o resultado ao final da partida. Descansado, ele se vale de um braço novo em folha e uma variedade de lançamentos para vencer os rebatedores adversários, já cansados. Se pensarmos bem, é muito parecido com o que foi feito pelo goleiro holandês, de maior envergadura que o titular e que havia estudado seus adversários, além de enfrentá-los destroçados física e mentalmente pela maratona de 120 minutos em Salvador.

O futebolista de cabeça aberta pode ir além: no hóquei, as substituições (para se ter um time mais ofensivo ou defensivo) são feitas com o disco em jogo, e até o goleiro pode ser substituído por um jogador "de linha" para aumentar as chances de se marcar. No futebol americano, você tem jogadores especialistas em receber lançamentos longos, romper defesas em corridas curtas e executar chutes de longa distância. São sujeitos que entram em campo dependendo da necessidade do time. Seria demais imaginar, por exemplo, um exímio batedor de faltas sair do banco para executar apenas as cobranças? Trocar zagueiros por armadores e atacantes nos minutos finais de partida? Tirar o goleiro para aquela cobrança dramática de escanteio, aos 49 do segundo tempo, e ver entrar em campo um craque na arte do cabeceio?

As possibilidades seriam infinitas, mas o futebol é um dos esportes mais conservadores no que diz respeito às mudanças, reconhecendo-se ser difícil acostumar-se a elas. Demoramos séculos para utilizar a tecnologia que confirma um gol, e ninguém pensa em acabar com a aberração que é a lei do impedimento. Decisões como a tomada por Van Gaal no último sábado dificilmente acontecerão de novo, salvo algum "Professor Pardal" queira aparecer como um "mestre" da estratégia. Particularmente, não acredito que ele fará o mesmo contra a Argentina hoje. Mas ficarei na torcida para que Krul volte a assumir a função de "closer" holandês.

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