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10 de Julho de 2014 - 06:00

Por JÚLIA PESSÔA

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Lá em 1960, Edith Piaf estava na sarjeta. Doente, ameaçando aposentadoria, tendo tomado diversas porradas da vida e, pelo conjunto da obra, aparentando muito mais do que seus 45 anos. Ainda assim, encheu os pulmões do corpo franzino e bradou para quem quisesse ouvir - e para quem não quisesse também: "Não, não me arrependo de nada", tradução de "Non, je ne regrette rien", que batiza uma das mais belas canções já feitas.

Minha vida, embora não seja "en rose", nunca esteve perto dos dramas que cruzaram o caminho de Edith, e embora também ao contrário da dela, minha voz não estremeça cômodo algum, eu também, como ela, não regretto nada. Qualquer sinal de interesse por futebol que eu tenha tido ao longo da infância anda, há muitos anos, adormecido. Flamenguistas e maldosos dirão que é porque venho de uma linhagem de vascaínos cardíacos proibidos clinicamente de acompanhar os jogos. Verdade seja dita, depois de uma infância de títulos do Vasco de Edmundo e Romário, ficou difícil me empolgar com o futebol cruz-maltino subsequente e eu simplesmente abandonei a causa.

Lembro-me bem do "é teeeeeetra, é teeeeeetra, é teeeeeetra", do grito ensandecido do Galvão, das carreatas, de viver uma euforia louca com o Brasil trazendo a taça, tempo em que a paixão ainda estava acesa, mesmo do alto ( ou baixo) dos meus poucos 9 anos de idade. Depois disso, nenhum Mundial me tocou. Zoei as convulsões do Ronaldo em 98, dormi na final que rendeu o penta em 2002, no Japão; peguei cerveja na geladeira e olhei o churrasco em 2006 e trabalhei durante boa parte de 2010.

Talvez seja uma nostalgia da infância futeboleira, o clima de Copa que tomou conta país ou a vontade de peitar que não acreditava que podíamos sediar um Mundial, mas, em 2014, me apaixonei. Sabe aquelas paixões que a gente custa para descobrir? Foi assim. Até o jogo contra o Chile, estava em negação, "não, não me ligo muito em futebol, não. Gosto é da bagunça de ver jogo." Quando acabou aquela infindável disputa de pênaltis, minha reação me desmascarou: chorei, pela primeira vez, ao fim de uma partida. Abracei um véio tocador de corneta que eu queria matar desde o início do jogo. Gritei 'vai ter duas Copa' no meio da rua, assim, sem plural, repetidamente. Dali para frente, eu sabia: estava a fim da Copa. E assim foi.

O que muda com a eliminação do Brasil? Muita coisa. Apesar de achar que é obrigação da molecada do Felipão ganhar o terceiro lugar, a torcida e diferente. Mais envergonhada, com um olho na TV e outro em qualquer coisa mais interessante. Para ser sincera, não sei nem se a TV estará ligada. Tomamos uma chinelada no traseiro. Das feias. Sete vezes. E está doendo até agora. Mas isso não apaga o legado da Copa para a história do país, e muito menos, por tantos que, como eu, redescobriram essa coisa irracional que nos move coletivamente, essa paixão pelo futebol. Faria tudo de novo, igualzinho. Mesmo que fosse pra perder. Não, não me arrependo de nada.

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