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10 de Julho de 2014 - 06:00

Por DANIELA ARBEX

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Acho que sou uma das poucas brasileiras que não têm um time. Não sou aficionada por futebol, mas sempre gostei da hora do gol e da vibração da torcida. Na Copa do Mundo, porém, a emoção é diferente, e quando a gente percebe está lá, no meio da sala, gritando e sofrendo em cada lance da partida. Na véspera da semifinal do Brasil, viajei a Belo Horizonte para entrevistar alguns personagens do meu próximo livro. Lá, fui surpreendida pelo convite de assistir à partida da última terça-feira. Empolgada, liguei para o meu marido que estava em Juiz de Fora e fiz a convocação: "você tem que vir para cá amanhã", disse, ao telefone. Escalado, ele arrumou tudo a jato e amanheceu na capital mineira para assistir ao jogo comigo. Éramos pura euforia! Três horas antes do início da partida, já estávamos na porta do estádio. Como típica mineira, não queria correr o risco de perder nada.

Nunca tinha pisado num estádio. Quando cheguei à entrada da arquibancada e avistei o campo a poucos metros de onde estava, fiquei muito impactada. Como os olhos de jornalista não descansam nem na hora do lazer, comecei a prestar atenção nos detalhes de um espetáculo feito para seduzir: som, cores, gente bonita e inúmeras câmeras de TV procurando os rostos que estavam lá para ver e serem vistos.

Aos poucos, o Mineirão repaginado foi tomado pelos canarinhos. Difícil conter o impulso de postar cada cena nas redes sociais, na tentativa de compartilhar todo o clima de alegria. Quando o hino brasileiro começou a tocar, o coração descompassou. Depois do momento solene, vários gritos de ordem começaram a ecoar. O Mineirão era nosso, pensei precipitada. O banho de água fria veio no primeiro gol da Alemanha. De novo, pensei: ainda bem que foi no começo, porque assim haverá tempo para recuperação. Doce ilusão. Logo em seguida, o segundo gol alemão. Seria possível? Quando nem tinha me refeito, o terceiro e, minutos depois, o quarto. Olhei no relógio: 17h24. Como, em 24 minutos, a Seleção Brasileira tinha desenhado uma derrota deste nível?

Em meio à goleada, me lembrei de 1950. Cresci ouvindo meu pai falar do dia em que o Maracanã emudeceu na derrota do Brasil na final contra o Uruguai, dentro de casa, na primeira Copa realizada no país. Sempre tentei imaginar o que sentiu cada torcedor verde-amarelo que, como ele, pisou no estádio aquele dia. Sessenta e quatro anos depois, as posições se inverteram. Agora é a minha vez de contar para o meu pai octogenário que a goleada de 7 a 1 no Brasil fez mais de 60 mil vozes se calarem no Mineirão, silenciando por tabela outros 200 milhões de torcedores-sofredores nos quatro cantos do país.

Mesmo decepcionada, não pude deixar de admirar a torcida alemã, que fez bonito durante toda a partida. Apesar da desvantagem numérica, eles chegaram ao Mineirão em festa. E nem toda a cantoria brasileira conseguiu abafar a sonoridade deles. Em gestos ritmados, os rivais intimidaram a nossa torcida. A festa que era nossa ganhou novos anfitriões. De repente, éramos nós os penetras em um estádio agora tomado pela euforia dos caras-pintadas de preto, vermelho e amarelo. No quinto gol alemão, a torcida entoou um "ô, ô, ô, ô, Rio de Janeiro". Foi ensurdecedor....

Apesar daquela humilhante partida, eu entendi que testemunhava um momento histórico do futebol, quando os gigantes de pouca estratégia se quedaram diante do talento de um time sem nenhuma tradição no quesito carisma, mas com capacidade de trabalhar em equipe. O que será que o sabor amargo da derrota pode nos ensinar? Será que o comportamento do time em campo é apenas fruto de uma escalação equivocada ou o reflexo das relações sociais e da nossa incapacidade de agir como uma coletividade? Será?

A certeza que tenho neste momento é que, daqui a alguns anos, vou poder descrever para o meu filho todos os detalhes do nosso 8 de julho de 2014, o dia que jamais queríamos ter vivido. E vou poder dizer a ele: eu estava lá!

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