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05 de Julho de 2014 - 06:00

Por HÉLIO ROCHA

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Torcer pela Argentina não é torcer por um futebol sujo. É torcer pela única grande força do futebol, à exceção do Brasil, que não é uma potência do continente europeu. É incentivar, no imaginário das nações, a resistência do colonizado ante o colonizador. O esporte, espaço de redenção de minorias desde que o negro Jesse Owens venceu os velocistas de Hitler nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, permite este sentimento de resistência, e não é por acaso que, em países como o Brasil e a Argentina, há relação diferenciada entre o desportista e o torcedor. Esta relação mexe com a autoestima de uma população, faz uma nação historicamente subjugada ser representada acima de suas opressoras.

Meu irmão, Estêvão, e meu tio, Samuel, estiveram no jogo entre Argentina e Irã. Num dado momento, Diego Armando Maradona surgiu no telão do estádio. O público ovacionou loucamente o herói das Copas de 1986 e 1990, responsável por conduzir a seleção argentina a duas finais de Mundial e ao título de 1986. No Brasil, temos mais ídolos no futebol e por isso desprezamos tanto o legado de Pelé, mas tivemos com Ayrton Senna interação similar à dos "hermanos" com o Don Diego. Ambos foram os atletas que conduziram seus países à redenção no palco do esporte. Talvez por isso o alemão Lothar Matthäus ou o italiano Dino Zoff não sejam tão adorados por seus compatriotas.

Há mais similitudes do que diferenças entre os modos brasileiro e argentino de admirar o esporte e os atletas. O estigma legado aos argentinos, de jogo sujo e truculento, incentivado pelas transmissões de TV em busca de um antagonista que impulsione a audiência, cai por terra se considerada a partida que confrontou Brasil e Argentina na Copa de 1990. Maradona encarnou o futebol arte ao driblar os defensores brasileiros e passar para Caniggia, livre, fintar Taffarel e fazer 1 a 0. No mesmo jogo, Ricardo Gomes foi expulso por dar um carrinho desleal no meia Basualdo, quando ele estava livre para ampliar a vantagem. A questão da água batizada com tranquilizantes, oferecida por Maradona ao lateral Branco, jamais foi comprovada.

Brasil e Argentina são, portanto, duas nações que encaram o esporte como espaço de afirmação. Correta ou não, esta postura nos transforma em torcedores mais próximos uns dos outros do que dos europeus.

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