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23 de Fevereiro de 2014 - 06:00

Por iniciativa de um morador, Associação Desportiva Graminha reúne crianças do bairro para treinar futsal e competir em torneios locais

Por WALLACE MATTOS

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O linha-dura Cristian e a meninada do Graminha na quadra pública do bairro
O linha-dura Cristian e a meninada do Graminha na quadra pública do bairro

A consciência dos benefícios que o esporte pode trazer nos lugares carentes não é restrita a estudiosos do tema ou governantes interessados na promoção de ações sociais. Muitas vezes, o amor pela prática esportiva pode gerar oportunidades em locais onde a falta de opções de lazer e as lacunas deixadas pelo poder público pareciam condenar crianças e jovens a serem privados não só de atividades essenciais para seu desenvolvimento físico, mas de interações que ensinam muito mais do que apenas uma modalidade esportiva. Nesse espírito, um trabalho com futsal é desenvolvido na Praça do Graminha, Região Sul de Juiz de Fora, de forma voluntária, pelo vigilante Cristian Barbosa, 35 anos, na Associação Desportiva Graminha (ADG). E a iniciativa está prestes a dar passos importantes na direção de um futuro promissor.

Há cerca de um ano e meio, Barbosa tinha um problema: queria tirar seus filhos Matheus, então com 9 anos, e Isac, à época com 6, da frente do videogame e do computador. Mas não queria simplesmente que eles fossem brincar nas ruas. Sem muitas opções de lazer no bairro onde reside, tomou a frente de um projeto que, tempos depois, se tornaria maior do que ele mesmo podia imaginar. "Fui montar um time para meus meninos aqui no bairro e pensei em fazer uma equipe de futsal. Como o lugar é carente, foram chegando meninos, pedindo para participar dos treinos. Não tinha como falar para uns que sim e outros que não. Acabei aceitando todo mundo e estamos hoje com 40, 50 garotos e garotas entre 7 e 17 anos", conta o vigilante.

De um time para seus filhos, por conta da pressão das próprias crianças, a estrutura teve de crescer. E sem ter quem bancasse a iniciativa, Barbosa acabou apertando o seu orçamento próprio para conseguir dar condições melhores a seus pequenos atletas. "Não temos patrocinadores, apoio financeiro. Assim, fui comprando as coisas do meu próprio bolso. Três cones aqui, duas bolas, e assim foi. Conseguimos algumas doações, como a dos uniformes para jogos, por exemplo. Foi tudo no sacrifício, mas, quando comecei, nem achava que teria condição de ter o que temos hoje para trabalhar com as crianças", explica o treinador.

Mesmo as limitações financeiras não desanimaram o idealizador da iniciativa. Este ano, suas equipes participarão de um dos torneios mais tradicionais da cidade, a Copa Prefeitura/Bahamas de Futsal, nas categorias sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17, no masculino, além da infanto-juvenil, no feminino. O vigilante também procurou a Prefeitura e começa a tomar providências para poder receber apoio do poder público municipal. "Fui até a Secretaria de Esporte e Lazer (SEL) e me orientaram a registrar a associação, conseguir CNPJ e fazer todo a legalização de nossa iniciativa. Estamos nesse processo e, assim que o concluirmos, poderemos receber auxílio da Prefeitura em questões como material esportivo por exemplo, além de podermos buscar outras formas de apoio."

 

Disciplina e compromisso

Exigente com a disciplina de seus atletas, Barbosa comanda treinos às segundas, quartas e quintas-feiras, com início das atividades às 17h30. Para participar da equipe, basta a criança querer, mas tem que cumprir algumas regras básicas. "Se a criança não estiver na escola, não pode participar dos treinos. Cobro deles frequência tanto aqui quanto no colégio. Periodicamente, eles trazem o boletim para eu olhar. Um dos principais objetivos é educá-los. Por isso essa preocupação. Onde o projeto vai dar eu não sei, mas quero passar para eles uma formação através do esporte e da educação", conta o fundador da ADG.

Nos fins de semana são realizados os jogos amistosos da garotada do Graminha. Muitas vezes, as partidas acontecem fora do bairro, aí a responsabilidade aumenta. "Peço para os pais ou responsáveis darem o dinheiro da condução para irmos ao jogos fora. De vez em quando alugamos uma van ou vamos de ônibus mesmo. É uma responsabilidade grande. Se acontece algo, está sob minha tutela. Mas os pais confiam em mim e, até hoje, não aconteceu nada com ninguém. Tenho pessoas, como a minha esposa, Adriana, e um amigo, o Marcos Vinícius, que ajudam. Quando não posso, ir eles levam. Os meninos maiores olham os menores, alguns pais vão também e é tudo como uma grande família mesmo", conta Cristian.

 

Troca justa

Olhando para as mudanças que a iniciativa voluntária trouxe para sua vida e dos garotos e garotas do bairro, Cristian se considera um privilegiado. "O primeiro a receber os benefícios desse trabalho fui eu. Quando comecei, tinha acabado de perder minha mãe e minha avó em um período curto, e eles me ajudaram a superar essa tristeza. O interesse aqui não é nem o futebol. Quando começamos, tinha menino que não saía de casa, não se enturmava ou ficava vagando pelas ruas sem ter o que fazer, podendo facilmente se desviar para caminhos que não são legais. Se eu puder evitar que um deles que seja entre nesse mundo de violência, das drogas e dos vícios, estou feliz para sempre. De vez em quando, até pelos sacrifícios, bate o desânimo. Mas lembro do menino que não pode pagar uma escolinha, a maioria aqui, e não consigo deixar cair. Me sacrifico, mas a recompensa está no sorriso deles, em sua alegria em vir treinar. Isso não tem dinheiro que paga."

 

'Quero ser jogador quando eu crescer'

Uma rápida conversa com os garotos e garotas que treinam na ADG é suficiente para perceber que a chegada da iniciativa voluntária trouxe não só uma alternativa de lazer para o bairro, mas alimentou um sonho comum a todo brasileiro. "Um amigo meu me contou que tinha o treino aqui, e eu vim. Antes não tinha nada aqui, vínhamos de vez em quando jogar bola, mas não muitas vezes. Melhorou muito tendo os treinamentos sempre. Quero ser jogador quando crescer e, para isso, tem que treinar", constata Cauã Parceli, 10 anos. "Se não tivesse esses treinos aqui, ia ficar somente em casa ou brincando na rua. Agora eu me dedico, porque quero jogar futebol uma dia", faz coro Gustavo Domingos, 12.

Até mesmo as meninas do bairro despertaram sua atenção para os encantos da bola e também projetam talvez um futuro com ela nos pés. "Posso dizer que saí do quarto para a quadra. Antes, ficava lá em casa, sem fazer nada. Quando começaram os treinos aqui, pedi para minha mãe e vim ver se teria condições de treinar com o pessoal", conta Marcele Menezes, 12. "Logo em seguida, vieram outras meninas também. É bem legal treinar com todo mundo. Comecei para ter alguma coisa para fazer, ter uma atividade física e, agora, sonho em ser uma jogadora, quem sabe?"

Além do futebol

E não só jogar bola que satisfaz a garotada. Saindo do mundo do videogame ou do computador, a maioria descobriu o prazer de conhecer pessoas e lugares. "Aqui na praça, gosto de treinar e fazer amizades. Conheci muita gente nova que não conheceria se ficasse em casa", diz Gustavo. "Fiz vários amigos desde que comecei aqui. Hoje, conheço praticamente todo mundo do treino, e isso é muito bom", considera Marcele. "Eu também gosto de ir jogar em outros bairros, conhecer lugares que não conheceria se não trivesse a equipe", emenda Cauã.

Os benefícios dos treinos vão além da melhora das habilidades com a bola. Seja pelo relato dos próprios garotos ou de seus responsáveis, é possível constatar que a transformação em seu dia a dia passou da quadra para fora. Segundo Matheus Nunes, 19 anos, tio de dois alunos, Maria Fernanda, 12, e Breno, 9, a atividade trouxe mudança em casa. "Eles passaram a respeitar e a obedecer mais. Até comendo melhor estão", relata. Fabiana Silva, 33, mãe de Artur, 13, diz que o pequeno se soltou graças à iniciativa voluntária de Cristian. "Acho interessante e muito bom esse trabalho, evitando que as crianças fiquem nas ruas largadas, pois antes não havia nada para elas aqui. Meu filho conheceu muitos amiguinhos aqui, e isso ajudou em sua socialização", acredita.

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