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15 de Dezembro de 2013 - 07:00

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"Guerra de mamona no Museu"! O grito empolgado de um dos nossos colegas era o sinal: corríamos todos para o parque do Museu Mariano Procópio. Formávamos nossas equipes, recolhíamos as mamonas nas camisas e fazíamos nossas trincheiras imaginárias.

Geralmente em outubro as jabuticabeiras do parque ficavam carregadas e lá íamos, em turbas de moleques, saborear as frutas. "Mas cuidado com o guardinha!" Existia entre nós a sensação de que pegar as frutinhas era algo proibido, o que dava ainda mais sabor ao feito.

Assim crescemos, nós criados ali no bairro Mariano Procópio, chamando de "museu" toda paisagem, inclusive o parque, que envolve essa joia de Juiz de Fora, o Museu Mariano Procópio. A presença constante e alegre por ali, desde a mais tenra infância, talvez tenha feito com que demorássemos a perceber a exuberância dos prédios e o valor histórico daquele lugar.

Tinha apenas 5 anos quando fiz minha primeira visita guiada ao Museu. Lembro-me como se fosse hoje: ansioso como sempre, o dia anterior tornou-se uma tortura. E lá fomos nós conduzidos pela Tia Eliana da Escola Menino Jesus. A conversa que passava de boca em boca era de que lá existia uma senzala. E a palavra senzala soava como dor. Falávamos baixinho, como se fosse um palavrão! Ainda éramos pequenos para entender exatamente o sofrimento que a escravidão havia legado ao povo negro, mas a experiência daquele dia me fez observar atento não só a suposta senzala, mas também os objetos do acervo relacionados a esse episódio da nossa história.

Retornei ao parque do museu no meu papel de moleque ainda muitas vezes. E depois foram inúmeras visitas escolares que ganhavam a cada dia mais um olhar curioso e refinado. Como se cada ida revelasse um novo detalhe no acervo. Os móveis do período imperial, as vestimentas expostas que pareciam dar vida e sentido ao passado, como se expusessem os segredos dos personagens de nossa história.

O tempo passou e a curiosidade da senzala tornou-se sentimento de responsabilidade e indignação. Aos poucos a galeria de arte ganhava ainda mais sentido aos olhos de um rapaz não tão jovem. A vontade de ver e conhecer transmutava-se em olhar crítico. "Será que essa tela de Jean Honoré-Fragonard é original?"

Memória, história, arte, arquitetura, o cheiro e a geografia da infância se uniam em um único sentimento. E o moleque que brincava de guerra de mamona e roubava jabuticabas no parque do museu resolveu tornar-se historiador. E, claro, pesquisador da história do Brasil Império.

O Museu Mariano Procópio conserva o segundo maior acervo histórico do Brasil Império, uma coleção de obras de arte vultuosa e oferece um conjunto arquitetônico ímpar, tudo isso conjugado à beleza natural traduzida pelo paisagismo. Mas segue na minha memória afetiva como meu lugar de brincadeiras, amizades e fantasias de criança.

 

Historiador formado pela UFJF. Poeta, autor de "A lápide do amor e outras poesias (Funalfa)", é também um dos organizadores do Eco Performances Poéticas, evento mensal de poesia que acontece na cidade desde 2008. Nos últimos anos, tem atuado também como letrista de música popular.

 

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