Idoso que dormia na rua é encontrado morto
Morador em situação de rua desde janeiro, Aldmir Anselmo Alencar de Souza, 64 anos, foi encontrado morto no início da manhã de ontem na Rua Oswaldo Cruz, no Bairro Santa Helena, onde ele e outros dois homens dormiam. O idoso foi abordado um dia antes pelo Consultório na Rua, uma equipe de atenção básica voltada para o atendimento de saúde dessa população. Segundo a assistente social do Consultório na Rua, Paula Miranda, ele mostrou-se receptivo à abordagem, mas estava visivelmente deprimido com a agressão cometida por um transeunte contra um colega que também dormia no local e precisou ser atendido no HPS na última terça-feira. Aldmir tinha uma filha que reside no Bairro São Pedro e chegou a dar o nome dela para a equipe, mas não houve tempo de contactá-la. Provavelmente, ele faleceu na madrugada de quarta-feira. O corpo dele foi avistado em via pública, às 7h30, e já apresentava rigidez cadavérica quando foi encontrado. Um médico do Samu confirmou o óbito. Apesar da noite fria, que registrou mínima de 11,9 graus, com sensação térmica de 8 graus entre 4h e 5h, ainda não é possível afirmar se a baixa temperatura contribuiu para o óbito do homem. O corpo foi encaminhado para necropsia no Instituto Médico Legal (IML), e o exame deverá apontar a causa de sua morte.
“As condições desse grupo de moradores em situação de rua eram muito precárias. Tratava-se de um grupo muito vulnerável no aspecto físico, psíquico e clínico. Aldmir fazia uso abusivo de álcool e estava com a sua autonomia comprometida, embora não tenha feito nenhuma queixa clínica durante o nosso atendimento, ocorrido na terça-feira. No entanto, ele estava muito deprimido e com choro fácil”, comentou a assistente social.
O Centro de Referência em Direitos Humanos lamentou a morte do idoso. “É lamentável a morte de mais um morador em situação de rua em Juiz de Fora. Ainda não se sabe a causa da morte, mas acredita-se que o óbito tenha sido em decorrência de hipotermia por conta das baixas temperatura. Na tentativa de evitar mais vítimas, uma das alternativas seria a ampliação do número de vagas no albergue e o incentivo para que os moradores de rua possam acessar o serviço”, disse Fabiana Rabelo, do Centro de Referência em Direitos Humanos
De acordo com o subsecretário de Gestão do Sistema Único de Assistência Social (Suas), Rogério Rodrigues, a família de Aldmir é atendida pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). “Ele era alcoolista, não aderiu a nenhum tipo de acolhimento, embora nossa equipe de abordagem tenha oferecido a ele acesso aos serviços do município. Em função deste e de outros casos, decidimos dar ciência ao Ministério Público sobre os casos de pessoas resistentes que não aderem a nenhum serviço. Ele bebeu muito na noite que antecedeu sua morte e passou mal. Só através do laudo é que saberemos o que aconteceu.”
Para o coordenador Estadual do Movimento Nacional de População de Rua, Alex Maciel Teixeira, é fácil compreender a resistência desse grupo em utilizar os serviços de acolhimento do município devido à precariedade dos mesmos. “Visitei o Núcleo do Cidadão de Rua na terça-feira à noite e fiquei estarrecido com o estado crítico do albergue. As pessoas estão dormindo no chão, com cobertores rasgados, colchões usados, sem o mínimo de dignidade. Além disso, os monitores criam suas próprias normas e tratam os usuários com enorme rispidez”, criticou Alex.
Críticas continuam após reabertura do albergue
As informações foram confirmadas por dezenas de moradores de rua que se reuniram na tarde de ontem no Centro de Referência em Direitos Humanos. Uma das piores críticas em relação ao serviço foi quanto à reabertura do albergue após o local ter sido tomado por uma infestação de muquiranas (piolhos humanos). Apesar de intervenção do Departamento de Zoonose e dedetização do albergue, que ficou uma semana fechado, as muquiranas permanecem no espaço. “A gente está completamente esquecido pelo Poder Público. Parece que, para eles, há coisas mais importantes do que a vida humana. Estamos dormindo em colchões mofados que foram retirados de um hospital que estava fechado”, criticou Alan Freitas, 36 anos.
Simonal Cosme Cipriano disse que, além das muquiranas, o albergue está com piolho de cobra. Além disso, dos sete chuveiros, só dois possuem água quente. Carlos Alberto Marques Júnior também fez duras críticas. “Nem todo mundo que está lá é analfabeto, usuário de droga e bandido. Tem muito funcionário do albergue pensando que aquilo lá é cadeia e toca os usuários com mão de ferro.” Segundo Alan, muitos funcionários do núcleo se queixam do serviço e alegam ser obrigados a trabalhar lá. “Para trabalhar com morador de rua tem que ser uma pessoa com formação, capaz de respeitar a nossa história”, afirma.
Outra reclamação dos usuários é quanto à qualidade da comida servida no núcleo. “A maior parte da comida vai para o lixo, porque ninguém aguenta comer. Até arroz azedo serviram para gente. Que ajuda humanitária é essa?”, questiona Alan. No ano passado, a comida também foi alvo de reclamação. A redução de vagas no albergue, de 150 para cem, foi outro ponto citado, além do encaminhamento para o albergue de migrantes vindos de outras cidades.
O subsecretário de Gestão do Sistema Único de Assistência Social (Suas), Rogério Rodrigues, admitiu que os colchões distribuídos no albergue são usados, mas afirmou que todos eles passaram por esterilização. “Eles estão em condições de uso e deverão permanecer no albergue até que a licitação para a compra de novos colchões seja concluída. Quanto aos migrantes, estamos reordenando o serviço de migração, e o albergue é o espaço que temos. Alem disso, eles também têm direito de ser atendidos. Quanto à alimentação, a queixa não chegou oficialmente até nós, mas vamos tomar providências, pois o serviço tem que ser oferecido em condições dignas. Embora a execução não seja nossa, a fiscalização é. Vamos notificar a executora para que ela preste esclarecimentos. Vamos cobrar responsabilidades de quem recebe os recursos para garantir atendimento digno. O que me incomoda é perceber que os espaços deliberativos não têm sido acionados. É importante que essas demandas cheguem até nós para buscarmos resolutividade.”









