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8 de janeiro de 2017 - 03:00

Inclusão é desafio

Vinte e cinco anos após a Lei nº 8.213/91, Juiz de Fora ainda não conseguiu cumprir a cota de empregos para pessoas com deficiência
Por Gracielle Nocelli
Cartão de visitas: responsável pela contratação de profissionais da Fadepe, Imaculada Vicente, 40 anos (à esquerda), é motivo de orgulho para colegas de trabalho e serve como estímulo para os que chegam à fundação. (Foto: OLAVO PRAZERES)

Cartão de visitas: responsável pela contratação de profissionais da Fadepe, Imaculada Vicente, 40 anos (à esquerda), é motivo de orgulho para colegas de trabalho e serve como estímulo para os que chegam à fundação. (Foto: OLAVO PRAZERES)

Dentre as lacunas deixadas em 2016, está a garantia de acessibilidade aos brasileiros. No ano em que se completou 25 anos da Lei nº 8.213/91, que dispõe sobre a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, o país mostrou que ainda tem muito a caminhar quando o assunto é inclusão. Em Juiz de Fora, apenas a metade das vagas que obrigatoriamente são destinadas a este público estão preenchidas (52,4%). Mesmo assim, o índice supera o de outras cidades do estado, como Belo Horizonte (37,7%), Uberaba (30,86%) e Uberlândia (21,7%). Para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a principal dificuldade para a inclusão consiste na superação por parte das empresas, que ainda se atentam à deficiência em vez de observar a potencialidade dos trabalhadores.

A Lei nº 8.213 de 24 de julho de 1991 estabelece que as empresas com cem ou mais funcionários devem destinar entre 2% e 5% das vagas do quadro de efetivos para pessoas com deficiência. Na cidade, há 101 empresas que devem cumprir a regra e somam o número mínimo de 1.817 oportunidades para se enquadrarem na legislação. No entanto, apenas 952 deste total estão preenchidas. “As empresas alegam que não há pessoas para ocupar estas vagas, mas o que vemos é que quem está descumprindo a lei, na verdade, não tem conseguido fazer uma inclusão de forma efetiva”, afirma o auditor fiscal do trabalho do MTE, José Tadeu de Medeiros Lima.

POUCAS VAGAS

Segundo o IBGE, há 24.102 pessoas com algum tipo de deficiência permanente na cidade, que poderiam preencher as cotas estabelecidas pela legislação. “O número é muito maior do que o total mínimo de vagas, mas as empresas alegam que quem tem deficiência não quer trabalhar por achar que vai perder o Benefício de Prestação Continuada (BPC)”, explica José Tadeu. Ele, no entanto, contesta a afirmação.

“Os dados da Previdência mostram que temos 6.338 pessoas que recebem o BPC por deficiência no município. Se estes desistirem de entrar no mercado, ainda assim, temos outros 17.764. O número continua muito superior às vagas disponíveis. O que falta é incluir de verdade.” Em 2011, a Lei Orgânica de Assistência Social (Loas) foi modificada, garantindo que pessoas com deficiência que recebem o BPC possam ingressar no mercado de trabalho sem perder o direito ao benefício.

No Brasil, 24% da população possui algum tipo de deficiência, segundo o IBGE. O cruzamento das informações com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostram que, no país, há 9,3 milhões de brasileiros que se encaixam na Lei nº 8.213 para um total de 827 mil vagas abertas.

Acessibilidade também é atitudinal

Na avaliação de José Tadeu, apesar de tudo, houve avanços em relação à acessibilidade. “Já melhoramos muito, temos mais empresas preocupadas em colocar rampas e elevadores, por exemplo, mas este é apenas um dos caminhos para se tornar acessível. Ainda falta a compreensão de que acessibilidade também deve ser atitudinal, não apenas arquitetônica.” Ele explica que é necessário uma mudança de comportamento. “É preciso parar de olhar a deficiência e enxergar as potencialidades. A maior parte dos cargos disponíveis exige pouca escolarização e oferece baixos salários, como se existisse uma opinião formada de que a pessoa com deficiência não pode estudar e se preparar para o mercado.”

A consultora em Recursos Humanos, Carol Portilho, acredita que falta informação por parte das empresas. “Há muitas pessoas com deficiência que têm formação e competência para trabalhar nas mais diversas áreas, o que falta é um movimento para mostrar ao mercado que elas estão disponíveis para serem empregadas.” A especialista concorda que ainda existe uma lacuna no mercado juiz-forano no que se refere à acessibilidade. “As contratações melhoraram nos últimos anos, mas isso se dá por conta da Lei nº 8.213/91 e do maior monitoramento do Ministério do Trabalho.”

José Tadeu destaca que não é o profissional que deve se adequar à empresa, mas o contrário. “Enquanto não tivermos uma mudança cultural, o mercado não será inclusivo. É importante que adaptações aconteçam. Ouvi uma vez de um gestor que ele não entendia o motivo de uma profissional com deficiência auditiva ter pedido demissão. Conversamos sobre a rotina dela, e foi quando ele me disse que ninguém na empresa sabia Libras (Língua Brasileira de Sinais). Ficou claro que esta funcionária não se sentia incluída no ambiente de trabalho, nem mesmo a oportunidade de socializar com os colegas era dada a ela.”

"É necessária uma mudança de comportamento. É preciso parar de olhar a deficiência e enxergar as potencialidades." José Tadeu de Medeiros Lima, auditor fiscal do trabalho do MTE

“É necessária uma mudança de comportamento. É preciso parar de olhar a deficiência e enxergar as potencialidades.” José Tadeu de Medeiros Lima, auditor fiscal do trabalho do MTE

EQUIPAMENTOS

Softwares de apoio para pessoas com deficiência visual, audiodescrição, informações em braile, conhecimento em Libras, rampas, elevadores, altura de bebedouros e outros equipamentos, além de maçanetas no modelo de alavanca são alguns dos exemplos para garantir a acessibilidade. “Também é preciso mudança nas relações. Incluir é garantir o sentimento de pertencimento, é fazer o profissional se sentir parte da organização”, pondera José Tadeu.

É possível fazer diferente

Apesar da lacuna existente no mercado, há locais que dão exemplos de inclusão, conforme avaliação do MTE. Desde 2014, a Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Fadepe) tem trabalhado na inclusão de pessoas com deficiência. Hoje, o quadro de funcionários possui percentual superior ao exigido pela Lei nº 8.213/91, e os colaboradores estão distribuídos em diferentes cargos.

Dentre as funcionárias está a assistente de Gestão de Pessoas Imaculada Vicente, 40 anos. Responsável pela admissão e o controle de benefícios e férias, ela é considerada pelos colegas “o cartão de visitas” da Fadepe. “Quando você é contratado, a primeira pessoa que conhece é ela, e já fica motivado com o emprego”, conta o assessor de comunicação Bruno Coelho. A motivação se dá pelo entusiasmo e a satisfação com que Imaculada fala sobre seu trabalho. “Fiz a faculdade de Recursos Humanos, e esta é a primeira vez que estou colocando em prática o que estudei. Estou adorando.”

Natural de São Geraldo, na Zona da Mata, Imaculada nasceu com deficiência física nas pernas. Começou os estudos em sua cidade natal e, aos 24 anos, se mudou para Juiz de Fora para fazer faculdade. “Nunca me coloquei limites.” E esta determinação está presente em sua rotina. “Venho para o trabalho quase sempre de carona com colegas, mas quando é preciso, ando de ônibus sem problemas. Moro com uma prima, e nós dividimos as tarefas de casa.”

Fadepe adapta sede

A produtividade de Imaculada é elogiada pela gerente de Gestão de Pessoas, Carolina Amorim. “Ela é uma profissional muito focada, motivada e disciplinada. A Imaculada começou na Fadepe atuando na área financeira e, quando abriu a vaga no nosso departamento, vimos que ela tinha estudo na área e a trouxemos para cá. Não vivemos sem ela.”

Quando a Fadepe mudou para a nova sede, no Cascatinha, a equipe levou Imaculada ao local com antecedência para saber quais adaptações deveriam ser feitas por conta de sua estatura. Bebedouros, pias, ponto eletrônico e outros equipamentos foram instalados ao alcance dela. “Estas adaptações não são complicadas de serem feitas. A Imaculada usa um apoio para os pés, e nós temos elevadores. Também temos funcionárias com deficiência auditiva, mas que conseguem se comunicar com a gente, mas pretendemos aprender Libras, diz Carolina.

Processo contínuo de aprendizagem

Na entrada da MRS Logística, o chão é sinalizado em braile de forma que pessoas com deficiência visual tenham independência ao caminhar. Este é o primeiro mecanismo de acessibilidade com o qual visitantes e funcionários se deparam ao chegar na sede da ferrovia, na Avenida Brasil, Centro. Também apontada pelo MTE como exemplo de inclusão, a empresa também emprega pessoas com deficiência física e auditiva.

A assistente administrativa Franchesca de Mattos Madeira, 29 anos, integra o quadro efetivo. “Minha deficiência foi adquirida após um acidente, quando eu tinha um ano e seis meses. Convivo com ela quase que a vida inteira, então aprendi a lidar com isso e a me superar sempre que necessário.” Ela teve o braço direito amputado, o que a não impede de trabalhar com o uso do computador e sonhar com o retorno às quadras de handball. “Sou ex-atleta. Participei da seleção da minha cidade, mas desde que me mudei, precisei parar. Estou retomando os contatos para ver se volto.”

Franchesca nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e se mudou para Juiz de Fora há seis anos. “Vim para estudar e buscar oportunidades.” Como típica jovem da geração Y, ela também é motivada pela vontade de aprender. “No ano que vem, pretendo fazer pós-graduação e estudar novo idioma.” No trabalho, os colegas admiram o seu entusiasmo. “Sento ao lado dela, e vejo como é motivada. Não fica estagnada”, conta o assessor de comunicação Diogo Kling. “Me sinto completamente integrada”, diz.

Sempre motivada: Franchesca de Mattos Madeira não conhece barreiras; sua meta agora é aprender nova língua e fazer pós-graduação. (Foto: OLAVO PRAZERES)

Sempre motivada: Franchesca de Mattos Madeira não conhece barreiras; sua meta agora é aprender nova língua e fazer pós-graduação. (Foto: OLAVO PRAZERES)

‘Não queremos só encher a cota, queremos incluir’

A gerente de Treinamento e Desenvolvimento da MRS, Simone Souza, explica que todos os funcionários da empresa participam de avaliação de desempenho. “Todos que estão com a gente é porque realizam um trabalho satisfatório e têm boa produtividade, e isso se refere também às pessoas com deficiência. O tratamento é o mesmo para todos.”

Segundo ela, o trabalho de inclusão da empresa consiste em adaptações na estrutura física e orientações às equipes. “Fazemos palestras e workshops com os gestores para mostrar como deve ser realizado o trabalho com os colaboradores. Não queremos só preencher a cota, queremos incluir.” A empresa mantém constantemente vagas abertas no site (www.mrs.com.br) .

Apesar de cumprir com a exigência da Lei nº 8.213/91, Simone diz que há mais dificuldades para encontrar profissionais com deficiência. “A desistência nos processos seletivos é três vezes maior. Acredito que também falta orientação aos candidatos. Isto deveria começar em casa, com a família incentivando a independência e a competência deles. Posteriormente, nas escolas com uma educação inclusiva e que não diferencie pessoas. O processo de inclusão envolve várias esferas e deve ser contínuo.”

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8 comentários

  1. patricia disse:

    As empresas de Juiz de Fora estão totalmente despreparadas para receber nós deficientes, só querem atender as cotas exigidas em lei, trabalhei em uma empresa situada na Av.Rio Branco , eles avaliam sua deficiencia , quanto mais sua deficiência parecer normal aos outros melhor, me demitiram antes dos tres meses de experiencia ,descobri atraves de funcionarios que outro funcionario anterior a mim é deficiente auditivo tambem não permaneceu no trabalho parece que contratam de 3 em 3 meses.

  2. Thiago disse:

    Olha já tive a oportunidade de trabalhar na MRS como PCD. Infelizmente só estávamos lá para preencher a cota, com faculdade ou sem vc não paça de PCD e assistente.

  3. André disse:

    Quer tal começar a investigar o “PACTO” feito entre as grandes empresas de Juiz de Fora de uma não “roubar” PNE da outra?

  4. Álvaro Nunes Lima disse:

    Sou pcd, e trabalhei por 6 anos na MRS: ‘O STATUS DE PCD NA mrs, NÃO PASSA DE ASSISTENTE ADMINISTRATIVO”. Sofri preconceito, e humilhações, meu defeito, ser deficiente e competente. A maioria dos funcionários da MRS não estão preparados para compartilhar o ambiente de trabalho com PCD’s, como também alguns gestores.

  5. bleck charme disse:

    a prefeitura deveriam criar centro d capasitacoa para os df assim
    nao chegariam desenformado oa mercado de trabalho

  6. flavio disse:

    juiz de fora e uma cidade muito preconceituosa exemplo:vai ao shopping independencia de bermuda e chinelo como as pessoas te olham.infelizmente o preconceito e o racismo existem.

  7. Anderson Rodrigues pires disse:

    Já deixei vários currículos na Mrs nunca me chamaram pra uma entrevista olha que sou reabilitado Do INSS tenho curso técnico fo SENAI

  8. Eduardo Resende disse:

    “NÃO SÓ QUEREMOS ENCHER A COTA, QUEREMOS INCLUIR . . . .” Já a prefeitura , transparente, enchem a cota, enchem as secretarias, enchem os departamentos, de apadrinhados, de puxa sacos, de comissionados, pessoal da base, candidatos derrotados nas eleições, etc, não incluindo os competentes efetivos concursados ! Acorda JF.

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