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19 de abril de 2017 - 07:00

Lentes que registram o futuro do pretérito

Projeto 'Encontros na Leocádia' reúne fotógrafos para registrar a região de Goianá, incluindo a Fazenda Fortaleza de Sant'Anna; francês Jeremy Suiker realiza workshop no próximo encontro
Por Júlio Black
Gustavo Stephan planeja publicar um livro sobre o passado e o presente da Fazenda Fortaleza de Sant'Anna (Foto: Gustavo Stephan)

Gustavo Stephan planeja publicar um livro sobre o passado e o presente da Fazenda Fortaleza de Sant’Anna

Em suas andanças pelo país na segunda metade do século XIX, o fotógrafo carioca Marc Ferrez passou pela Zona da Mata e documentou a região por meio de suas imagens, incluindo a Fazenda Fortaleza de Sant’Anna, em Goianá, que era uma das mais modernas do Brasil e referência na produção de café. Agora, quase 130 anos depois, um grupo de fotógrafos percorre parte dos passos de Ferrez no projeto “Encontros na Leocádia”. Iniciada em novembro de 2015, a imersão fotográfica terá sua terceira edição a partir desta quinta-feira, com direito a workshop do fotógrafo francês Jeremy Suyker.

Segundo o coordenador do “Encontros na Leocádia”, Márcio Menasce, são 12 vagas disponíveis para cada encontro, com o valor cobrado para a inscrição cobrindo a hospedagem e alimentação na Fazenda Santa Leocádia, base do evento. O primeiro dia (quinta-feira) é para o encontro e apresentação dos participantes; no segundo dia (sexta), aula teórica de Jeremy Suyker e apresentação dos portfólios; no terceiro dia (sábado), aula prática com visita à Fazenda Fortaleza de Sant’Anna e outros locais das redondezas; no último dia, Suyker ajuda os fotógrafos a selecionarem e editarem as melhores fotos.

A ideia dos encontros fotográficos surgiu da cabeça do fotógrafo juiz-forano Gustavo Stephan, que trabalhou em “O Globo” e tem uma relação afetiva com a região de Goianá. “O meu pai era de Rio Novo, e passei minhas férias entre a infância e a adolescência por lá. Ele, inclusive, comprou a Fazenda Santa Leocádia no final dos anos 80. Eu voltei a passar mais tempo por lá há cerca de um ano e meio, quando meu pai faleceu, justamente numa época em que havia saído do jornal e tentava me redescobrir em um novo trabalho. Juntei a vontade de dar aulas de fotografia com a questão de registrar os espaços da região, que, apesar de ter frequentado muito, eu raramente fotografava”, explica.

Para fotografar em paz

A essa vontade juntaram-se os fotógrafos que Gustavo conheceu no curso de pós-graduação na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro – cidade que, segundo ele, tornou-se “inóspita” para quem investe alto em equipamento, e que – por ser uma metrópole – tem o complicador de as pessoas não quererem ter seu cotidiano registrado por meio das máquinas fotográficas. “Conversei com o Márcio a respeito da ideia e sugeri esse evento na região de Goianá, em que o pessoal é muito receptivo, caloroso, enxerga de outra forma a fotografia. Eles se sentem orgulhosos de ver gente de fora achando o lugar importante. E eu, particularmente, sempre gostei de fotografar as regiões rurais.”

Foi este novo horizonte que o Gustavo apresentou aos colegas, e parte deles participou dos dois primeiros encontros – e até mais. “O Márcio tem me acompanhado em outras oportunidades em que vou para Goianá e Rio Novo, assim como outros integrantes do ‘Encontros…’. As pessoas começaram a ter um envolvimento com a região”, comemora. “Outra coisa que está na moda é a astrofotografia, e a região é propicia para isso por ter poucas cidades, o céu fica bem estrelado. Três pessoas que participam dos eventos gostam de fazer esse tipo de registro.”

O encontro do próximo final de semana será o primeiro com um fotógrafo convidado, Jeremy Suyker – que, segundo Márcio Menasce, é fruto do acaso. “Nós estávamos fotografando, topamos com o Jeremy e começamos a conversar. Entramos em contato com seu trabalho e achamos interessante a história dele, que tem uma vida nômade desde 2010 rodando o mundo e vendendo seu material para diversas revistas”, diz. Entre as publicações estrangeiras para as quais vendeu suas fotos, estão a revista “National Geographic” e o jornal alemão “Der Spiegel”.

Um lugar, vários ângulos

Conhecida no século XIX como uma das mais modernas produtoras de café do Brasil, fazenda que chegou a pertencer às famílias de Mariano Procópio e Cândido Tostes vive uma nova realidade (Foto: Márcio Menasce)

Conhecida no século XIX como uma das mais modernas produtoras de café do Brasil, fazenda que chegou a pertencer às famílias de Mariano Procópio e Cândido Tostes vive uma nova realidade (Foto: Márcio Menasce)

Gustavo Stephan destaca a variedade de material observado ao final de cada encontro, quando todos apresentam as fotografias já editadas e selecionadas. “Em pouco tempo, já temos um material muito rico. São pessoas que vão aos mesmos lugares, mas que apresentam trabalhos diferentes. Cada um tem seu estilo, sua preferência”, pontua.
A ideia é fazer um inventário fotográfico da região a partir desses encontros, que Gustavo já considera “um coletivo fotográfico”. “Queremos fazer um livro coletivo e vamos buscar apoio quando o trabalho tiver mais corpo. Quando for a hora certa”, planeja. Quem quiser participar dos eventos futuros pode entrar em contato pelos e-mails stephan.gustavo@gmail.com, marciomenasce@gmail.com ou colombohistoria@gmail.com (de André Colombo, que é responsável pela produção).

Local histórico

Além das belezas naturais, a região de Rio Novo e Goianá tem como um dos principais marcos históricos a Fazenda Fortaleza de Sant’Anna, fotografada por Marc Ferrez no século XIX e que pertenceu a duas famílias de tradição em Juiz de Fora, as de Mariano Procópio e Cândido Tostes. Atualmente, parte do terreno é ocupado por integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) após desapropriação promovida pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização Rural e Reforma Agrária). De acordo com Gustavo, a fazenda tem sua área dividida entre quatro municípios, possuindo a maior reserva de Mata Atlântica da Zona da Mata.

“É uma estrutura de importância histórica. A casa principal foi destruída em um incêndio, mas ainda há várias estruturas preservadas em maior ou menor grau, como a capela, armazéns de café, parte da casa de máquinas, a senzala, árvores centenárias. Foi a mais moderna fazenda produtora de café no Brasil, que depois passou a investir na produção de leite devido à crise do café, há quase cem anos”, conta Gustavo Stephan, para quem é importante desenvolver o turismo cultural na região – sendo esta uma questão em que o MST poderia ser parte importante.

“Esse patrimônio tem que ser preservado. Há um espaço ali que pode ser transformado em museu. A população da cidade repassa essas histórias, e quem vem de fora ajuda na preservação. Há trocas de experiências entre moradores, visitantes. Tem um rapaz do assentamento, o Dowglas, que participa dos encontros com a gente”, diz Gustavo.
“Você tem ali, na fazenda, pessoas com uma consciência social bem grande, mas não têm condições de fazer a preservação do patrimônio, mesmo que reconheçam a importância histórica do local”, acrescenta Márcio, explicando como a fazenda, em sua época, poderia ser considerada à frente de seu tempo na forma como tratava o cultivo cafeeiro. “As plantações de café eram feitas nos morros, e a produção descia por dutos de água, com quatro quilômetros de extensão, já chegando limpa para o transporte, algo que não se fazia no Brasil. Era uma tecnologia importada da Alemanha, e ainda podemos ver resquícios disso.”

Presente (e futuro) em conexão com o passado

A presença de integrantes do MST na Fortaleza de Sant'Anna mostra os novos tempos da fazenda centenária, desapropriada pelo Incra (Márcio Menasce)

A presença de integrantes do MST na Fortaleza de Sant’Anna mostra os novos tempos da fazenda centenária, desapropriada pelo Incra (Márcio Menasce)

A conexão entre presente e passado (as belezas naturais e as estruturas remanescentes da fazenda) com o futuro (a partir do assentamento de integrantes do MST) deve render, ainda, outro livro além do projeto coletivo – neste caso, tocado exclusivamente por Gustavo Stephan. “Estou desenvolvendo um trabalho pessoal sobre a Fortaleza de Sant’Anna que envolve a questão histórica e a ocupação, dois temas que me interessam. Temos lá, hoje, 40 famílias de colonos e cerca de 90 famílias do MST, e pretendo conversar com eles sobre a importância do local para que tenham uma relação mais afetiva com a fazenda, além de discutir a questão com os moradores da região.”

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