Leveza e fantasia para interagir com a plateia


Por Leonardo Toledo e Renato Salles

21/02/2012 às 12h05

O clima de descontração e tranquilidade marcou, ontem, a noite de desfiles do Grupo A na Passarela do Samba. Sem incidentes graves na avenida, a apresentação das 6 agremiações transcorreu de maneira leve e festiva e foi prestigiada por arquibancadas lotadas, além dos muitos foliões que espreitavam na concentração e na dispersão das agremiações. Todas as escolas iniciaram sua apresentação sem atrasos e conseguiram cruzar a avenida no tempo previsto, sem necessidade de se apressar nos instantes finais.

Apesar da grande variedade de temas, foi possível notar o esforço em comum das agremiações para interagir com a plateia a partir de estratégias diversas. Enquanto algumas escolas distribuíram flores e doces na avenida, outras procuraram se comunicar com os espectadores pela irreverência de fantasias e alegorias. Arquibancadas e camarotes corresponderam ao chamado com aplausos, confete e serpentina.

 Comissão

Feliz Lembrança

 

Primeira escola a pisar na avenida pelo Grupo A, a Feliz Lembrança apostou em uma tema leve e de fácil leitura para conquistar a simpatia dos espectadores. Com o enredo "Pode ser liso, crespo ou ondulado, mas todos querem um bom penteado", a agremiação do Bairro Barbosa Lage trouxe os modismos e referências históricas ligadas ao cabelo.

O desfile da tricolor abriu a noite pontualmente, às 21h, sem as arquibancadas completamente lotadas. O público, entretanto, respondeu com aplausos ao tom divertido do desfile, a começar pela comissão de frente, representando uma equipe de cabeleireiros às voltas com uma cliente, entre erros e acertos. A cada apresentação na passarela, uma rápida troca de perucas garantiu um novo penteado para a personagem.

Da vaidade cotidiana, a escola passou a o penteado como símbolo de status social. Os soberanos egípcios vieram representados no segundo carro. A quarta alegoria, por sua vez, brincou com o estilo extravagante das perucas usadas pela nobreza europeia. No século XX, a música ditou moda, seja com os caracóis de Caetano Veloso ou com o topete de Elvis Presley. O rastafári de Bob Marley e os moicanos multicoloridos dos punks também não foram esquecidos. Com o cabelo coberto por um turbante com frutas, Carmem Miranda foi homenageada na ala das baianas.

Fazendo a cabeça de crianças e adolescentes em todo o Brasil, o penteado do jogador Neymar foi o escolhido para ala das crianças. A alegoria "Salão de beleza feliz" encerrou o desfile com o mesmo tom cotidiano da abertura. Com folga de tempo, a Feliz Lembrança cruzou a avenida em pouco mais de 50 minutos e pode fechar sua apresentação com grande tranquilidade.

 O

Unidos do Ladeira

 

Na busca pelo título, a Unidos do Ladeira centrou expectativas na reedição do enredo "Clara, clareia clareou", responsável pelo tricampeonato da escola em 1984, e na bênção da cantora Clara Nunes. O desfile antecipa as comemorações pelos 70 anos de nascimento da cantora, que serão celebrados em 2013.

Ave-símbolo do canto cristalino da sambista, o sabiá foi representado no abre-alas e na comissão de frente, composta por um casal de dançarinos clássicos, que cruzou a avenida na ponta dos pés. A surpresa ficou por conta do manto azul manuseado por dez bailarinas que escoltavam o casal, simulando o movimento da água.

As cores branco e prata dominaram a fase inicial do desfile, incluindo o casal de mestre-sala e porta-bandeira, André e Pâmela, que se destacaram tanto pelo figurino quanto pelo bailado. Em sequência do abre-alas, a escola fez menção às origens mineiras da cantora, nascida no município de Paraopeba.

Tema de diversas músicas de Clara Nunes, o mar foi destaque no segundo carro na escola, que soltava bolhas de sabão sobre a plateia. Fantasiados como guerreiros, os ritmistas fizeram menção a outra grande inspiração da sambista, a cultura afro.

A frente da bateria, um naipe de chocalhos executados por mulheres ressaltou a presença feminina no samba, fato ressaltado também pela voz de Sandra Portela na condução do samba. Escola do coração de Clara Nunes, a Portela foi homenageada em um carro azul e branco, com a famosa águia da agremiação carioca. O desfile foi encerrado sob a proteção dos orixás, que abençoavam uma componente caracterizada como a cantora.

 Branca

Mocidade Independente do Progresso

 

A Mocidade Independente do Progresso entrou na avenida disposta a contar não uma, mas muitas histórias. Com um enredo sobre o universo infantil, a agremiação trouxe um mistura dos mais populares contos de fadas. O tema escolhido fez jus ao grande número de crianças entre os componentes da agremiação. Os pequenos foliões tiveram direito a quatro alas mirins, representando personagens como Peter Pan e os anões de Branca de Neve. Misturados aos ritmistas adultos, os pequenos também fizeram bonito na bateria.

O enredo "As belas histórias que vovó contava" foi levado ao pé da letra pela comissão de frente. Personagens como João e Maria, Alice e os Três Porquinhos saltavam das páginas de um livro para a avenida. Outro destaque ficou por conta de um artifício curioso no abre-alas. Ao invés de empurrar pela parte traseira, para movimentar o carro, os componentes da escola foram inseridos dentro da alegoria, com pés no chão, mas com o restante do corpo fantasiado, representando os sapos do conto "Festa no céu", de Câmara Cascudo.

Além das alegorias, chamaram atenção os muitos destaques de chão da escola, como o casal representando o Rei e a Rainha de Copas do livro "Alice no País das Maravilhas". A frente dos ritmistas vestidos de caçadores, a rainha da bateria distribuiu doces aos espectadores como Chapeuzinho Vermelho.

Castelos e princesas inspiraram alas e alegorias da escola, mas também houve espaço para os vilões, tema do quarto carro da agremiação. Como toda boa história infantil, o desfile terminou com final feliz, registrado devidamente nas costas da última alegoria, com os clássicos dizeres: "E viveram felizes para sempre…"

 Comissão

Mocidade Alegre

 

Quarta escola a entrar na Passarela do Samba na noite de ontem, a Mocidade Alegre trouxe para a Avenida as mais variadas cores da natureza, com o enredo "Se as flores pudessem eleger uma rainha, essa só poderia ser a rosa". Em busca de mais uma conquista, a atual campeã do carnaval juiz-forano contou uma história de perfumes e tons. Os 800 componentes da agremiação fizeram uma viagem por diversas culturas e povos, como Índia, Babilônia, Grécia, Espanha e Alexandria. Até a Zona da Mata esteve representada no desfile, que lembrou o município de Barbacena, conhecido como a "Cidade das Rosas".

Momentos antes da apresentação, representantes da escola percorreram a Passarela do Samba oferecendo flores para o público. A intenção era contagiar a todos e fazer da vida dos foliões um verdadeiro mar de rosas, ao menos durante o desfile. Classificada pelo carnavalesco Marcos Conegundes como musa dos compositores, a rosa foi venerada e enaltecida desde a comissão de frente, formada por 9 componentes. Nela, 8 beija-flores pairavam em uma bela coreografia para exaltar a flor, ao centro.

Na sequência, as baianas abriram espaço para o carro abre-alas. A alegoria lembrou os Jardins Suspensos da Babilônia, com flores, borboletas e pássaros representados por 7 destaques. Com o samba-enredo de Aílton Damião e Márcio Moreno na ponta da língua, os componentes da Mocidade avisavam aos jurados e ao público: "Tem perfume no ar. Vou encontrar minha paixão. Quero ver quem sabe dar uma festa no meu coração."

O clima era de romantismo. O público teve a oportunidade de imaginar e experimentar diferentes perfumes, valendo-se apenas da audição e da visão. Isso graças ao som contagiante da bateria e à aquarela formada pelas fantasias das 15 alas – e 30 destaques – que lembraram rosas de prata, ouro e até a poética Rosa de Hiroshima, tema do terceiro carro alegórico.

A Mocidade Alegre também fez uma viagem pela história da floricultura e visitou a Índia no segundo carro. A última alegoria lembrou o caráter religioso das rosas, no carro "Oferendas e Iemanjá", que trouxe para a Avenida 2 destaques e 6 integrantes. Como definiu o samba-enredo, "o mar ao fazer sua dança leva pétalas de fé, no vaivém da maré, para quem tem esperança."

Real 

Real Grandeza

 

A penúltima escola a entrar na Passarela do Samba começou fazendo um minuto de silêncio para lembrar o falecimento do pai de um dos integrantes da agremiação. Entretanto, no carnaval, não existe homenagem maior do que a realização de um belo desfile. E foi ao som de uma bateria bem coreografada, que a Real Grandeza cantou o enredo "Perfume, fonte de desejos sintonia de humor, amor e paz".

Desde o início, o carnavalesco Cláudio de Souza Menezes revelava à plateia a história do perfume ao longo dos séculos. A comissão de frente abriu o baú de segredos dos antigos alquimistas. Com 9 integrantes escondendo-se atrás de muito mistério e bombas de fumaça, a escola iniciou sua apresentação borrifando essências no público presente.

Além do nome da agremiação do Bairro Costa Carvalho, o carro abre-alas trouxe sete destaques femininos e um masculino, representando "Deusas e Deuses". Como descrito na letra do samba-enredo de Aílton Damião e Hamilton Damião, as divindades anunciavam: "Tem um cheiro bom no samba. Sua essência é Real. Vem na cadência dessa gente bamba, perfumar o carnaval."

O desfile seguiu relembrando a origem do perfume, revisitando os odores de culturas passadas, como a árabe, a grega, a romana, a indiana e até a indígena. A essência proveniente da natureza foi lembrada na segunda alegoria, "Flores e frutos", com 10 passistas, na qual prevaleceu o vermelho e o dourado em tons fortes. No terceiro carro, "Sonhos e essências", anjos sopravam trombetas como se anunciassem o jogo de sedução, proposto pelos seis destaques.

Também houve homenagens para os carnavais de outras épocas. Levantando o público presente com um forte ritmo, a bateria lembrou o lança-perfume, alegria outrora inocente. Na ala das crianças, a Real Grandeza usou as fantasias e o carisma das crianças para reforçar a máxima: "é nos menores frascos que estão as melhores essências".

A última alegoria falava de "Amor e sedução" e exaltou as qualidades dos perfumes franceses. Assim, com 750 componentes. divididos em 12 alas, quatro carros alegóricos e 28 destaques, a Real Grandeza fechou o desfile deixando para trás um aroma agradável na Avenida, um "cheirinho" de quero mais.

Casal

Partido Alto

Coube a Partido Alto a honra de fechar os desfiles do Grupo A. Levado pela letra do sexteto formado por Artur Cardoso, Arthur Veloso, Cezinha Maluco, Pedro Xerém, Roberto Garrido e Valter Veneno, a escola fez uma viagem que contou as origens da cultura italiana, além de suas influências em terras brasileiras. "Al Capone, o poderoso chefão, tem seu nome na história desse povo fiel à religião." Com um verso que ia da máfia ao Vaticano, a agremiação do Bairro Mariano Procópio fez seus 700 componentes cantarem o enredo "Amore mio. Partido Alto canta a Itália na Avenida".

No início da apresentação, o verde e o rosa do estandarte da escola prevaleceram na comissão de frente, que lembrou as "Saturnálias", antigo festival romano em homenagem ao deus Saturno. Com uma bela coreografia, os dez componentes puxaram a fila para que o carro abre-alas ganhasse a avenida, trazendo à passarela 7 destaques que representavam a Roma pagã.

Em seguida, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Dudu e Letícia, abriram espaço para uma releitura dos mais variados aspectos da cultura italiana, sob a ótica do carnavalesco Sérgio Murilo Passos. O compositor milanês Verdi foi lembrado no segundo carro alegórico que levava o nome de sua principal obra, "Aida". Encomendada pelo governo egípcio, a ópera foi representada por 4 destaques em uma alegoria que fazia alusões a pirâmides, pianos e notas musicais.

Terceira alegoria lembrou a tradição da Igreja romana e representou o Vaticano. Oito destaques levantaram a plateia com fantasias luxuosas, em um carro onde prevalecia o vermelho e o dourado. As alas se sucediam, e aos poucos a história italiana era costurada. Nada passou despercebido, com referências a cupido e Nero, o imperador incendiário, passando também pelo personagem Pinóquio, tema da ala infantil, até chegar às estreitas relações com a cultura brasileira, em áreas como a moda e a culinária.

Por fim, o quarto carro fez uma alegoria entre o teatro improvisado surgido na Itália no século XV, conhecido como "Commedia Dell’arte", e o carnaval brasileiro. Mais do que o luxo das fantasias dos seis destaques, a comparação entre os dois movimentos foi certeira, graças ao improviso de parte do público que tomou a Passarela do Samba, acompanhando de perto o fechamento dos desfiles.

Até o fim dos desfiles, a Polícia Militar (PM) não registrou nenhuma ocorrência de maior gravidade, além de brigas isoladas.