Juiz de Fora tem déficit de 226 policiais civis

Delegada Regional, Sheila Oliveira, e chefe do 4º Departamento da Polícia Civil, José Walter Matos, que visitaram ontem a Tribuna, apostam na convocação de mais investigadores para a região “Precisamos de material humano, essa é nossa principal carência”, afirmou ontem o chefe do 4ª Departamento de Polícia Civil, José Walter da Mota Matos, ao admitir, […]

Por Tribuna

16/01/2015 às 07:00hs - Atualizada 15/01/2015 às 20:55hs

Delegada Regional, Sheila Oliveira, e chefe do 4º Departamento da Polícia Civil, José Walter Matos, que visitaram ontem a Tribuna, apostam na convocação de mais investigadores para a região

Delegada Regional, Sheila Oliveira, e chefe do 4º Departamento da Polícia Civil, José Walter Matos, que visitaram ontem a Tribuna, apostam na convocação de mais investigadores para a região

“Precisamos de material humano, essa é nossa principal carência”, afirmou ontem o chefe do 4ª Departamento de Polícia Civil, José Walter da Mota Matos, ao admitir, ao lado da delegada Regional, Sheila Oliveira, o déficit de 226 policiais civis em Juiz de Fora e a necessidade de reestruturar a corporação, conforme já anunciado pelo próprio novo Governo de Minas. Em visita às novas instalações da Tribuna e à Rádio CBN-Juiz de Fora, no Estrela Sul, eles falaram da aposta na nova chefia da Polícia Civil no estado: o delegado geral Wanderson Gomes da Silva, com histórico de carreira “operacional”, foi escolhido pelo governador Fernando Pimentel (PT) para liderar a corporação, ao lado de Marcos Silva Luciano, nomeado como adjunto. A expectativa é de que boa parte dos mil investigadores que já estão na Acadepol possa suprir a demanda do cargo na cidade e região, que ainda carece de policiais em todas as áreas, como escrivães, peritos e delegados.

“O quadro de investigadores vai ser renovado, e esse serviço de campo é a base do nosso trabalho”, observou José Walter. “O Governo está falando abertamente que quer reestruturar a polícia toda, então, provavelmente, podem ser convocados até dois mil investigadores nesse concurso”, observou Sheila, acrescentando o fato preocupante de que, ainda em 2015, cerca de 30% do quadro atual de servidores da 1ª Delegacia Regional devem se aposentar.

 

Delegacias distritais x especializadas

Questionada sobre rumores de que as delegacias distritais, divididas por cada uma das sete regiões da cidade, iriam ser extintas e voltar a dar lugar às delegacias especializadas, como já estão em funcionamento as de Homicídios, Roubos e Antidrogas, a delegada Sheila ponderou: “Mudanças vão ocorrer. A divisão como é hoje em Juiz de Fora foi resolução conjunta entre a Seds (Secretaria de Estado de Defesa Social), Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público e outros órgãos. Algumas alterações devem ser feitas, mas o Governo ainda não se pronunciou.”

O chefe do 4º Departamento avaliou que a proposta de integração entre as forças de segurança pública, que surgiu junto com a setorização das delegacias no Governo tucano, “só existiu no papel”. ” Para você integrar, tem que partir do pressuposto de que as forças de segurança são equânimes. Só, que, por exemplo, o efetivo da Polícia Militar é, no mínimo, três vezes maior do que o da Polícia Civil, e nossa parte sempre foi deficitária. Esse é o grande gargalo para fazer integração da segurança pública.”

A principal preocupação de José Walter é retomar a qualidade do serviço investigativo. “Com o retorno das especializadas, temos condições de dedicar mais, não adianta só colocar metas. Nessa vivência, sabemos que muitos detalhes de um crime surgem no decorrer da investigação, o que demanda tempo.” Sheila fez coro: “O trabalho com as delegacias especializadas rende muito mais frutos. Isso é óbvio, todas as áreas do conhecimento estão se especializando. Não podemos simplesmente lotear uma cidade, porque não conseguimos juntar os fatos que acontecem e nem os modus operandi, porque não há tempo e nem condições para isso.”

Segundo José Walter, reuniões em Belo Horizonte apontam que a Polícia Civil vai voltar seu foco para a qualidade na investigação. “Vamos continuar com as metas, mas elas serão diferenciadas, não preocupadas com o aspecto quantitativo mas, principalmente, com o qualitativo”, disse José Walter. “A Polícia Judiciária hoje trabalha muito com apreensão, mas deveria trabalhar mais com inteligência, lavagem de dinheiro, para tentar atingir os grandes financiadores do tráfico. A Polícia Civil precisa estar mais estruturada para fazer o seu papel”, completou. Além de “brigar” por mais policiais no município, ele garantiu que vai interceder para que seja instalado o Posto de Perícia Integrada (PPI) no Bairro Granbery este ano. “Também tenho que alocar recursos nas regionais de Ubá, Leopoldina e Muriaé”, lembrou o chefe do 4º Departamento, que engloba 86 municípios na região.

Redução de homicídios é ‘preocupação central’

Enquanto o número de policiais civis só caiu no decorrer dos últimos anos, a cidade vivenciou uma escalada da violência, junto com o crescimento populacional. Além de conviver com o tráfico e consumo de drogas em praticamente todos os bairros e acompanhar a dilaceração de vidas pelo uso do crack, a população juiz-forana viu saltar o número de mortes violentas de 52 homicídios em 2010 e 2011, para 99 óbitos em 2012, 139 no ano seguinte e 141 assassinatos em 2014, conforme levantamento da Tribuna, que também considera as mortes ocorridas posteriormente aos crimes, mas em decorrência deles.

“Temos preocupação em Juiz de Fora com a redução do número de homicídios, é uma questão central. Mas também já temos nossos estudos de vínculos estatísticos dos números de mortes com o tráfico de drogas. Aí a questão é um pouco mais complexa. A Polícia Civil é um dos atores que vão atuar nessa frente. Tem toda uma questão de fronteira, de participação da sociedade, de união das forças de defesa social para minimizar os reflexos disso”, avaliou o chefe do 4ª Departamento de Polícia Civil, José Walter da Mota Matos.

“Fica vivo”

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José Walter também analisou que “o número de morte de jovens é muito grande e vinculado ao tráfico”. “O que mais nos deixa tristes e frustrados é ver o tanto de jovens manipulados pelo crime organizado, que perdem suas vidas envolvidos no tráfico de drogas.” Conforme levantamento da Tribuna, pessoas com idades até 25 anos representam pouco mais de 50% das 141 vítimas que perderam a vida em 2014 de forma violenta, e entre elas estão oito adolescentes. “A legislação, que tem como intuito a proteção dos adolescentes, acabou, de certa forma, sendo desviada para uma permissividade, onde esses menores são colocados para gerenciar bocas de fumo e, com isso, se envolvem mais cedo com a criminalidade. Guardam e manuseiam armamentos, já são treinados para o enfrentamento direto com a polícia. É recorrente o uso deles na eliminação física de seus concorrentes, o que aumenta o índice de homicídios”, analisou José Walter.

Segundo o chefe do 4º Departamento, uma das falhas é que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não chegou a ser efetivamente implementado pelo Estado já, que por exemplo, há poucos centros de internação para adolescentes infratores envolvidos em crimes violentos. Ele lembrou que a participação de mulheres em crimes também está crescendo.

Sobre a questão do programa “Fica vivo”, da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), voltado para o combate a homicídios, principalmente de jovens em situação de vulnerabilidade, a delegada Regional, Sheila Oliveira, acredita que o município ainda não foi beneficiado, apesar do grande aumento de mortes violentas, porque outras cidades do estado apresentaram índices de criminalidade ainda mais altos e, por isso, tiveram prioridade.

 

Caso “Matheus Goldoni”

O índice de apuração dos homicídios está em torno de 70%, segundo Sheila. Ela disse que também está auxiliando nos inquéritos que apuram assassinatos para dar mais agilidade, já que há déficit de pessoal. Em relação ao caso “Matheus Goldoni”, que teve grande repercussão, a delegada informou que ainda estão sendo aguardados os exames toxicológicos do jovem, encontrado morto no dia 17 de novembro após ficar desaparecido por mais de 30 horas. Matheus teria se envolvido em uma briga na casa de shows Privilège, no Bairro São Pedro, na Cidade Alta, e o corpo foi localizado dentro do curso d’água da cachoeira do Bairro Vale do Ipê, região central. A necropsia apontou como causa da morte “asfixia por afogamento”, e, conforme a delegada, os depoimentos colhidos até o momento ainda são muito contraditórios.

Problema das gangues e do crack

A tão almejada reestruturação da Polícia Civil possibilitaria mais agilidade no combate ao tráfico de drogas e aos crimes violentos praticados por gangues na cidade, apontados como os principais responsáveis pelas mortes violentas. “A violência que antes era restrita aos grandes centros agora está nos municípios pequenos e até na Zona Rural. Também houve a chegada do crack, droga barata, com produção em série e em escala industrial”, disse o chefe do 4ª Departamento de Polícia Civil, José Walter da Mota Matos, elencando um conjunto de fatores que contribui para a criminalidade.

Na opinião da delegada Regional, Sheila Oliveira, “parece que está acontecendo uma inversão de valores. Os filhos tratam os pais como iguais, sem respeito. Há consumismo exagerado, como jovens de famílias carentes com tênis de R$ 1 mil. Muitas vezes, eles começam a atuar como avião para conseguir o dinheiro. E os pais fazem vista grossa até descobrirem na delegacia que o filho está muito envolvido.”

Para José Walter, a reincidência criminal faz com que a polícia “enxugue gelo”. “A polícia enfrenta uma série de problemas que a sociedade precisa conhecer. A cadeia hoje está reservada para homicidas, traficantes, assaltantes e estupradores. Quem furta com pena de até quatro anos, não fica preso. E muitas das reincidências são cometidas durante as saídas temporárias. Nossa legislação é do século passado.”

 

Sociedade

Além de adquirir mais policiais, os delegados são unânimes em dizer que “a grande mudança está na sociedade”. Eles elogiaram o 1º Fórum de Segurança Pública, realizado no ano passado com a participação de vários setores. “A sociedade não pode esperar que o Estado vá prover todos os seus problemas. Tanto a Delegacia Regional, quanto o 4º Departamento de Polícia Civil, tem a mesma preocupação que a sociedade, estamos trabalhando muito, apesar dos poucos recursos, para tentar reverter esses reflexos da violência, que também nos assusta em Juiz de Fora. Temos o compromisso de preservar nossa qualidade de vida aqui”, concluiu José Walter.

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