Bons tempos, de Ulisses Belleigoli

A aurora ainda esticava seus róseos dedos sobre o dia quando o pequeno Henrique foi despertado pelo canto dos pássaros, ou talvez pela própria ansiedade. O cheiro do pão de queijo – receita da mãe – competia com o do chá de erva cidreira – trazida diretamente da horta da avó. Fez a deliciosa refeição […]

Por Bárbara Riolino

11/06/2017 às 07:00hs - Atualizada 10/06/2017 às 15:51hs

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Em texto ambientado no ano de 2035, criação de Ulisses faz ode ao cinema que encerra suas atividades na próxima quarta, 14

A aurora ainda esticava seus róseos dedos sobre o dia quando o pequeno Henrique foi despertado pelo canto dos pássaros, ou talvez pela própria ansiedade. O cheiro do pão de queijo – receita da mãe – competia com o do chá de erva cidreira – trazida diretamente da horta da avó. Fez a deliciosa refeição – preparada pelo pai – como quem sabe que aquele é o início de um dia de deleite. Hoje é dia futebol.

Henrique despede-se da família e corre até a casa de Guilherme, que já espera o amigo no portão. Juntos, vão até a escola do bairro, onde as bicicletas das crianças ficam guardadas. Descem o morro embalados, beliscando o freio aqui e ali, e depois pedalam até alcançarem a estação na Avenida Rio Branco. Fazem aquele caminho quase todos os domingos, mas, desta vez, um frio na barriga faz com que eles entrem no vagão com uma sensação que mistura leveza e peso. Hoje é dia de decisão.

Quando desembarcam, próximos à Catedral, escutam o chamado de Fernando, outro amigo. Ele carrega, em uma das mãos, uma maçã. Na outra, as camisas. A alegria contagia o rosto dos três meninos. O uniforme do time – feito numa das tradicionais malharias da cidade, além da marca do hortifruti que patrocina o time – leva o nome de cada um dos meninos. Hoje é dia dos craques.

No meio do Parque Halfeld, o juiz apita para dar início à partida. O sol vazando por entre as árvores e o alvoroço da torcida agitam os corações. Enquanto a bola rola no campinho – “levantando no ar poeira e espírito” – ao redor, os juizforanos desfrutam da beleza de sua cidade. Nas mãos, livros, pastéis, churros e amores. Uma música sutil, entoada por vozes femininas, contorna todos os corpos: um presente dos devotos da igreja de São Sebastião. Hoje é dia de celebração.

Os gritos eufóricos anunciam o término do jogo. Os campeões correm para abraçar os colegas e os pais. Cabisbaixos, Henrique, Guilherme e Fernando lamentam a derrota. Apesar dos dois gols de Ritinha e a cobrança de falta perfeita de Tonhão, o Atlético Clube dos Aventureiros Espaciais do Alto Grajaú perdeu a final da Copa dos Peladeiros Mirins de Juiz de Fora. A tristeza poderia ter durado, mas Dona Vera, vendedora de água de coco, traz impressa uma boa notícia para os três amigos. Hoje é dia de esperança.

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Na capa da Tribuna de Minas, do dia 15 de julho de 2035, a manchete estampada na primeira página diz: “Cine Palace anuncia sessões gratuitas para as crianças durante as férias de julho”. Os meninos se animam com as aventuras ainda desconhecidas que lhes reservam as telas do cinema. Guilherme tira da mochila um pacote de biscoito de polvilho, e Fernando compartilha o suco de goiaba com os amigos. Ao lado das bicicletas eles caminham pela cidade. O ontem é amigo. O amanhã, também. O hoje é aqui.

 

Ulisses Belleigoli

Ulisses Belleigoli é escritor, professor e contador de histórias. Publicou, dentre outros, “Dom” (Funalfa Edições, 2010), “Mundos no mundo” (Franco Editora, 2014), “Figurinhas maravilhosas” (Franco Editora, 2014), “O canto da princesa Rubra” (Funalfa Edições, 2014), “Soberano” (Funalfa Edições, 2015) e “Homo sapiens erectus” (Funalfa Edições, 2016). Nasceu, vive e trabalha em Juiz de Fora.

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