No papel, um espelho cruel

Vilaboinha é lugar tão árido que mal dá conta da existência. Tanto que mesmo a miserável Vila Marta parece lugar melhor. Os endereços que povoam o romance de estreia da paulista Sheyla Smanioto, “Desesterro” (Record, 303 páginas), revelam uma terra cruel, a violentar quatro gerações de mulheres. “Terra é: um bicho que come gente”, diz […]

Por Guilherme Arêas

15/06/2016 às 07:00hs - Atualizada 15/06/2016 às 16:11hs

Foto: Marcelo Ribeiro
Foto: Marcelo Ribeiro

Vilaboinha é lugar tão árido que mal dá conta da existência. Tanto que mesmo a miserável Vila Marta parece lugar melhor. Os endereços que povoam o romance de estreia da paulista Sheyla Smanioto, “Desesterro” (Record, 303 páginas), revelam uma terra cruel, a violentar quatro gerações de mulheres. “Terra é: um bicho que come gente”, diz a narradora, em passagem da obra com ritmo acelerado, subversiva ao embaralhar orações e suprimir pontuações. Denso na tentativa de dar conta de um mundo opressor e rude, o livro é vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2015 na categoria romance. [Relaciondas_post]Convidada da tarde de ontem na 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora, Sheyla, que prepara uma nova obra – “Mal entendido”, laureado com o Rumos Itaú Cultural do ano passado – conversou com a Tribuna sobre seu ofício, seu primeiro trabalho e sobre a dor das Marias que tira da rua e transforma em palavras. “Queria dizer com o livro: Está vendo essas experiências aqui? Elas também dizem respeito a vocês. Por que não estão ouvindo?”, conta a escritora de 26 anos, cientista da linguagem, ao fragmentar texto e termos, e militante de um Brasil, ao revelar seus cantos e ouvir suas vozes. Confira os principais trechos abaixo e ouça parte da entrevista:

[soundcloud url=”https://api.soundcloud.com/tracks/269123422″ params=”color=ff5500&auto_play=false&hide_related=false&show_comments=true&show_user=true&show_reposts=false” width=”100%” height=”166″ iframe=”true” /]

 

Um oi e um soco

“Tinha a impressão de que tinha que chegar logo com um soco na cara, porque senão talvez não me notassem. Queria fazer um livro que impactasse as pessoas como os grandes livros me impactaram. Mesmo que não conseguisse, queria tentar fazer. ‘Cem anos de solidão’ (de Gabriel García Marquez) foi o primeiro. Depois, ‘A invenção de Morel’ (de Adolfo Bioy Casares) me impactou muito. ‘Amada’, da Toni Morrison, ‘O caderno rosa de Lori Lamby’, da Hilda Hilst, ‘Eles eram muitos cavalos’, do Luiz Ruffato, ‘Contos negreiros’, do Marcelino Freire, me impactaram muito. Alguns livros mobilizam a gente fisicamente. E eu buscava isso, com o risco de que talvez as pessoas não entrassem, não compactuassem.”

 

Ritmo acelerado

“O que tentei fazer tecnicamente é juntar cordel com rap. Minha fala é a fala das pessoas que moro onde eu moro. Tentei trazer meu lugar para o livro.”

 

Preciso do que espelha

“Quando fui escrever, pensava que precisava fazer algo que dizia respeito a mim, não só como pessoa, mas como um ser social, alguém que pertence a um lugar e a um tempo. Preciso de uma escrita que de alguma forma traga para o papel, que vence o tempo, a vida de pessoas que assim como eu não se encontram facilmente.”

 

História de morte, vida e morte

“A gênese do romance tem a ver com construção de gênero, com a tragédia grega e com terror. Esse foi o meu projeto. Gosto muito de ler terror. E percebia: um monte de textos sobre fantasmas, mas sabe uma coisa que assusta mesmo? Fome! Fome assusta demais! As tragédias entraram porque eu pensava que mesmo sendo feitas há séculos, dizem mais sobre a minha realidade do que a maioria dos romances brasileiros contemporâneos. O lugar onde vivo e as histórias que ouço têm muito ‘matar ou morrer’. E todas as histórias de ‘Desesterro’ têm um pingo de acontecimento. Nada tirei da minha cabeça. Dei uma nota a mais porque do jeito como é contada nas notícias as pessoas não se incomodam. Se estou indignada, quero que as pessoas se indignem também. Então, carreguei na carga dramática.”

 

O desejo mora ao lado

“A psicanálise não foi feita para entender a psique das pessoas da periferia. Qual é a questão do contemporâneo: as pessoas não desejam mais. Lia textos sobre isso com gente fazendo barraco do lado e um milhão de coisas acontecendo em volta de mim. Ninguém deseja? As pessoas desejam demais! É outra coisa que está acontecendo aqui, e os textos não diziam respeito a mim.”

 

Ser o outro humano

O conteúdo continua após o anúncio

“A estrutura de ‘Jornada do herói’ (conceito desenvolvido pelo antropólogo Joseph Campbell), que é a estrutura básica das narrativas, é uma experiência basicamente masculina, em que a mulher fica esperando, e o homem vai desbravar o mundo, sem problemas em abandonar o que está atrás. Geralmente é cobrado que a mulher tenha responsabilidades numa certa idade, enquanto o homem pode ir para a aventura. O que é a experiência da pessoa que fica? Não somente a experiência do cara que leva uma bala, mas da mãe que fica esperando ele, sem saber se o filho vai voltar? Todas as experiências são válidas. Enquanto não olhar para a experiência do que é ter o corpo feminino, a gente só sabe 50% do que é ser humano. E a literatura é uma das formas mais genuínas para compartilharmos experiências. É o jeito de aprender a viver sem necessariamente correr os riscos que a vida implica.”

 

Uma mulher com sangue nos olhos

“Tem um ensaio da Virginia Woolf em que ela diz que existe literatura feminina, sim. A literatura é feminina quando, desde o princípio, quer romper com a ordem vigente. O mundo que está aqui não é feito para as mulheres, então, quando ela começa a escrever, logo quer acabar com tudo. Fui nesse sangue. Nunca me reconheci em nada. O jeito que a gente escreve não é o que falamos. Sempre fui para a escola como se fosse para um país estrangeiro, onde estão lidando com uma cultura que não é a minha.”

 

Escrevendo a sobrevivência

“Um jeito de sobreviver na literatura é ser, ao mesmo tempo, pessimista e otimista. Tem que ser otimista o suficiente para continuar escrevendo, mas também é importante enxergar a realidade do Brasil, de muito poucos leitores. Do jeito que as coisas funcionam, o escritor precisa criar espaços o tempo inteiro e abraçar todo leitor que aparece. Mais raro que escritor é leitor.”

 

Fora da regra

“Lembro de uma experiência na faculdade, quando me senti muito ‘estou vivendo de favor nesse mundo’. Era um trabalho sobre o conceito de Daemo, um conceito grego. Depois de um tempo fui perceber que interpretei pautada pela minha experiência na umbanda, já que a minha família é baiana e trouxe essa relação. Vi uma criança encarnada num moço. Era criança e me diverti. Logo depois vi ele passando na rua sem estar com o espírito da criança e fiquei indignada porque tinham roubado o corpo dela. Em nenhum momento duvidei daquele corpo adulto com uma criança. Para mim, Daemo é isso: é a coisa que modifica tanto o corpo que faz ver um adulto como criança. Fiz um texto sobre isso e o professor fez uma série de notas falando sobre o demônio, com uma visão católica, que é totalmente diferente da minha.”

 

Não há só algoz

“Uma das coisas que sempre me incomodou é a atração que a classe média tem pela história dos traficantes de favela. Assistindo a filmes percebi que existe uma certa liberdade de ser humano que eles gostariam de fruir porque não diz respeito a experiência deles. Me incomoda, também, quando vejo histórias de violência que são pura violência. Mesmo o Tonho (personagem de ‘Desesterro’), que é um filho da puta, está envolvido na própria máquina e não é só uma coisa. As pessoas são um sofisma, como o Tonho, que ao mesmo tempo em que faz um monte de besteiras, faz por amor.”

 

Palavra de destaque

“O lugar que ocupo é de muito privilégio. Tenho um livro, que é lido, foi publicado por um prêmio. É péssimo soar como se estivesse desprezando esse lugar de fala. A questão das editoras é uma questão dos escritores e do país. Todos somos imaturos. É como se estivéssemos aprendendo a como dar uma festa, bem no meio da festa.”

 

Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia