‘O saber é a vitalidade de um povo’


Por Júlia Pêssoa

02/04/2017 às 03h00

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“Se Deus me fez tão dinâmica, tenho que corresponder”, diz Nilzia, ao concluir a tarceira faculdade (Foto: Leonardo Costa)

De blazer, vestido estampado, saltinho e cabelos bem-feitos, ela chegou à Estácio de Sá. “É ela!”, dissemos juntos eu e o repórter fotográfico Leonardo Costa, enquanto víamos a senhora esguia se aproximando, de bolsa a tiracolo e andar firme. “Vocês são da Tribuna?”. A confirmação de que precisávamos. Chegava Dona Nilzia Fontes de Oliveira, 83 anos, recém-formada em direito, que havia colado grau na noite anterior. Desculpou-se pelo atraso que não cometeu, “ontem fui me deitar mais tarde por causa da formatura”, e com a serenidade de quem sabe o que diz, conduziu-nos a uma sala de aula para podermos conversar. “Tem uma sala que fica vazia neste horário”. Assim seguimos.

Dona Nilzia, que completou 83 anos no último dia 31, tem mais duas formações superiores: pedagogia, em que ingressou quando já era mãe, com seus 30 anos; e jornalismo, que cursou como um sonho a ser realizado, e uma herança familiar a ser pleiteada. Sobrinha de Pedro Gonçalves de Oliveira, um dos fundadores da PRB-3 e pioneiro da radiofonia juiz-forana, Nilzia também era filha de jornalista. Seu pai era Jônatas de Oliveira, irmão do radialista. “Cursei pedagogia na UFJF, e na época achava que não tinha base para tentar jornalismo que era meu sonho, porque eu vinha do supletivo e já trabalhava como servidora da saúde do estado. Queria me informar, entender o mundo, e a pedagogia também me proporcionou isso. Mas essa minha veia para a comunicação era muito forte, algo presente na minha vida desde sempre”, diz ela.

Como ninguém duvidaria ao ver Dona Nizia falar sobre sua trajetória de vida, o desejo em ser jornalista se realizou. Quando já aposentada como servidora, aos 72 anos, ela ingressou no curso da Estácio de Sá. “Não cheguei a ter vínculo contratual, mas sigo escrevendo artigos, resenhas, poesias e trovas. Sinto falta de quando saíamos para fazer coberturas com o equipamento da faculdade, eu carregava câmera, microfone, tudo, cada dia era uma história”, relata ela, que ocupa a 28ª cadeira da Academia de Letras da Manchester Mineira e tem dois livros no prelo, um de escritos livres e outro que relata a história da Rádio Solar em Juiz de Fora, tema que abordou em sua monografia de conclusão de curso no jornalismo. “Perdi tudo com um HD queimado, e os técnicos estão fazendo de tudo para recuperar.”

‘Sinto que posso ser útil socialmente’

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Poucos dias antes de chegar aos 83, Nilzia recebe 3º diploma (Foto: Arquivo Pessoal)

Com duas graduações, uma aposentadoria, viúva, morando sozinha, desacelerar aos 78 anos não fazia parte dos planos de Dona Nilza, o que já nem surpreende a essa altura da conversa. “Os fatos, os acontecimentos me incomodam de tal forma que tenho vontade de participar, melhorar, fazer minha parte como cidadã. Com minha vivência e conhecimento, sinto que posso ser útil socialmente. E por isso fui fazer direito, como complemento da comunicação. A sociedade precisa de quantas pessoas esclarecidas puder ter”, conta ela, que já sente saudades dos colegas de turma e do corpo docente. “Tive muito carinho de todos, inclusive fui homenageada na colação por ser a aluna mais velha e por me considerarem um exemplo. Eu espero que, formados, a gente consiga equilibrar a Justiça com atitude e verdade, pois ela, como o STF e outras instituições brasileiras, estão completamente desacreditadas”, conta ela, que foi aplaudida pela filha Maria Lúcia, de 60 anos, seus netos e mais familiares enquanto recebia o diploma.

A idade pode até não permitir mais alguns luxos, como ler sem os óculos e relaxar com a alimentação (“Quando ia lanchar com a turma, ficava atenta ao que podia comer”), mas não ofuscaram o senso crítico de Dona Nilzia, ou fizeram com que ela se omitisse em suas opiniões, mesmo as mais sujeitas a polêmicas. “Minha monografia do direito foi sobre a redução da maioridade penal para 16 anos. Não há distinção entre os crimes, e nem instituições preparadas para ressocializar os jovens. Eles são jogados em lugares sem estrutura, verdadeiras escolas do crime. Qual o bem social disso?”, questiona a recém-formada.

Com seus anos de janela, Nilzia assiste com tristeza à tensão política, social e econômica que assola o país na atualidade. “As pessoas estão apáticas porque não entendem o que está acontecendo no Brasil. Estudei e estudo tanto porque o saber é a vitalidade de um povo. Compartilhar este saber com quem não pode tê-lo é obrigação de quem tem acesso a ele. Uma sociedade que não sabe se sujeita à situação em que o país está hoje, um dos piores momentos de nossa história.”

Poucos dias antes da colação de grau, Dona Nilzia andou hospitalizada, coisa boba, uma gripe mais forte. “Queria só tomar um soro, mas me reviraram toda, fizeram até tomografia, vê se pode”, diz ela, feliz por ter se recuperado antes dos festejos. Depois de nossa conversa, iria até o Núcleo de Prática Jurídica para se informar sobre cursos de pós-graduação. A área que pretende estudar? Direito Criminal. “Quero descansar só um pouquinho, mas já tenho a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pela frente e a área criminal pode até ser desgastante para mim, porque mexe muito com sentimentos e subjetividades, e eu já tenho alguma idade. Mas escolhi não me entregar às limitações da velhice, e se Deus me fez tão dinâmica, tenho que corresponder.”

Cheia de planos, Dona Nilzia sabe bem seu lugar na vida, no mercado e na sociedade: onde ela quiser, e faz jus à máxima. “A emancipação da mulher caminha lentamente. Minha mãe não poderia fazer o que estou fazendo. Ainda somos mais vítimas do que cidadãs, a política e o mercado ainda nos discriminam… Mas a mulher tem que ir para o campo de batalha, as que puderam estudar e as que não. O importante é nos unirmos para formar uma outra mentalidade sobre o papel e os direitos da mulher.”