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03 de Abril de 2014 - 06:00

Por FERNANDA SANGLARD - JORNALISTA, MESTRE E DOUTORANDA EM COMUNICAÇÃO

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Nada tem me incomodado tanto ultimamente como a mania contemporânea e, principalmente, acadêmica, de se privilegiarem definições em detrimento da complexidade das coisas. Recentemente, tenho visto muita gente questionar e debater qual seria o "verdadeiro" dia do Golpe de 1964. De um lado, há os que defendem o 31 de março, de outro, os que afirmam ter sido em 1º de abril. Dos dois lados, parecem estar aqueles que apenas se preocupam com definições, esquecendo-se de que mais importante do que a data exata é o contexto que levou ao que antes, por imposição, era chamado de revolução, e, hoje, graças ao esclarecimento, já é conhecido como golpe.

Pessoalmente, prefiro usar como marco de referência o dia 31 de março e acredito que pelo menos os juiz-foranos deveriam fazer o mesmo. Mas não há dúvidas de que o golpe foi um processo. Aliás, o próprio general Olympio Mourão Filho deixou escrito em seu diário - publicado pelo historiador Hélio Silva - que a ação só seria desencadeada em 1º de abril se fosse para que ninguém acreditasse. E o golpe não deve ser encarado como mentira, como piada e muito menos como algo que possa ser esquecido. Além do mais, foi em 2 de abril que o Congresso Nacional declarou o cargo de presidente vago e empossou Mazzilli, que posteriormente seria substituído pelo general Castello Branco. E alguns perguntarão: então não seria golpe de 2 de abril?

O dia exato pouco importa, e, independentemente da escolha feita, defendo apenas que não esqueçamos 31 de março, porque foi nesse dia que Juiz de Fora entrou para a História com a pesada carga de ter sido a cidade de onde as tropas partiram. E isso é sintomático. Independentemente do tempo que se levou para chegar ao Rio de Janeiro, para depor o então presidente João Goulart ou para impor um novo regime, o golpe precisa ser entendido como um processo, complexo e planejado - ainda que antecipado pelo "rompante" do general Mourão. Fato é que, na madrugada do dia 31 de março, a ação militar se desencadeou, ainda que viesse sendo estudada muito antes.

O que Juiz de Fora não pode esquecer é que o golpe partiu daqui e que sua proximidade com o Rio de Janeiro e colocação estratégica podem hoje ser celebradas, mas foi um dos motivos para sua centralidade no movimento golpista. O que os juiz-foranos não podem esquecer é que o golpe deu início a uma ditadura, ainda que alguns historiadores - dos quais eu discordo plenamente - afirmem que ela só teria começado após o AI-5. Não podemos esquecer que o golpe teve apoio de importantes parcelas da sociedade civil, mas que não eram esses nomes que figuravam na preferência dos brasileiros nas pesquisas de intenção de voto - que, naquela época, já vinham sendo realizadas pelo Ibope. Não devemos esquecer que o contexto da Guerra Fria faz total sentido.

Juiz de Fora não pode se esquecer de seus políticos que perderam o mandato, de seus desaparecidos, de seus perseguidos e dos presos políticos que por aqui passaram. A cidade não pode esquecer sua história e muito menos abrir mão das memórias de quem, de um lado ou de outro, viveu tal período. É para resgatar isso que uma Comissão Municipal da Verdade vem sendo criada. Mas a definição de uma data passa longe de ser a preocupação primordial.

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