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10 de Janeiro de 2014 - 07:00

Por MARIO LUIS MONACHESI GAIO Doutorando em estudos de linguagem pela UFF

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Estamos às vésperas da divulgação de mais um resultado do Enem, e, como em todos os anos, espera-se algum tipo de polêmica a respeito da redação, uma vez que é a única parte da prova sujeita a críticas pelo seu caráter subjetivo. Pois a redação, junto com a prova de linguagens, a meu ver, pode provocar uma revolução pacífica no nosso sistema educacional. A continuar nessa linha, o Enem deverá provocar uma mudança de paradigma importante nas metodologias de ensino de língua materna, que, consequentemente, ajudará a melhorar o desempenho dos alunos no exame, hoje a principal porta de entrada da maioria das universidades brasileiras. O foco do sistema educacional brasileiro tem sido a aprovação em concursos, de todos os tipos. Estudamos para passar, e não para aprender. Não há preocupação específica e objetiva com formação de cidadania.

Isso está tão enraizado na nossa cultura que nem percebemos. Basta pensar que o que levamos em conta na hora de escolher uma boa escola para os filhos costumam ser os resultados por ela apresentados em concursos vestibulares, e mais recentemente no próprio Enem. Basta observar que a publicação anual dos resultados do Enem por escola nos impele a automaticamente considerar que aquelas com melhor desempenho são... melhores!

A prova de linguagens do Enem tem um foco bastante diferente do que tinham os concursos de outros tempos. Tive o cuidado de observá-la esse ano e confesso que fiquei motivado com o que esse modelo pode provocar no futuro nas nossas escolas. Todas as questões eram baseadas em interpretação de textos atuais, não havia questões sem contexto ou sobre conhecimento de nomenclatura gramatical. Não havia questões com lista de palavras para que fossem marcadas aquelas com acentuação errada. Nada disso. Afinal, reconhecer de memória a grafia de palavras esdrúxulas não significa conhecer bem a língua e suas peculiaridades. Então, para ter bom desempenho no Enem será necessário ler e escrever eficientemente, e as escolas deverão se adaptar, escolhendo um caminho que as leve a subir no ranking para serem bem conceituadas. O incentivo à leitura e à escrita, certamente o melhor caminho para formar cidadãos críticos, deverá ser também o melhor caminho para um bom resultado no Enem.

Candidatos aptos no Enem serão universitários com boa capacidade crítica, o que tenderá a melhorar seus desempenhos não somente durante o curso, mas também na vida profissional. Parafraseando Paulo Freire, pode-se, na infância, aprender a representar o som do V com "Eva viu a uva"; pode-se, no ensino fundamental, fazer uma análise sintática dessa mesma oração. Mas até o ensino médio será necessário "compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho".

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