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06 de Abril de 2014 - 06:00

Por JACOB PINHEIRO GOLDBERG - PSICANALISTA E AUTOR DE O DIREITO NO DIVÃ

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Terá sido mero acaso e fatalidade que o general Mourão Filho tenha dado o movimento inicial do Golpe de 1964 a partir de Juiz de Fora? "Vaca fardada", de pijama vermelho. O mundo de ontem, com destino ao antes de ontem. A "Casa Grande" saiu pela Dutra para (Eurico Gaspar, o simpatizante do eixo) esmagar a "senzala". Algumas reflexões sobre o desenvolvimento das forças paranoicas que estimularam a histeria da oligarquia brasileira e das camadas menos politizadas da população podem ser preciosas para a compreensão das placas tectônicas emocionais que fizeram eclodir a nossa farsesca e trágica ópera mussolinesca.

O então capitão Mourão Filho é considerado o autor intelectual do famigerado "Plano Cohen", uma invenção a partir da sua condição de chefe do Serviço Secreto da Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado e que tinha no seu "Projeto para o Brasil" o viés do antissemita Gustavo Barroso. Cohen é um estereótipo étnico judeu. Nas fantasias delirantes que associavam o bolchevismo e o judaísmo como conspirações internacionais, "Deus, pátria e família" sustentaram os pavores provincianos do sigma e das marchas que desencadearam o clima, o patético do golpe, em Minas dos simpatizantes do fascismo e nazismo, partejando um nacionalismo enviesado, que servia, como continua a servir, aos interesses norte-americanos.

Comecei a servir ao NPOR, no 12º Regimento de Infantaria em Juiz de Fora, coincidentemente com a militância estudantil de esquerda. O clima no quartel era de um esquadrão italiano tolo e fanfarrão em que se discutia a "ameaça argentina" de uma guerra imaginária. Pedi transferência para o CPOR-SP e depois no 4º Regimento de Infantaria, cheguei ao comando da 1ª Cia. de Fuzileiros em 1958, sob o comando do posteriormente general Zerbini, quando fiz para a PUC-SP o trabalho "Serviço social no Exército". Casado com Terezinha de Jesus, lutadora feroz contra a ditadura, que me indicou senador pelo PDT, com apoio de Leonel Brizola. Aliás, José Maria Crispim, ídolo do PCB paulista, me disse na Rua Dom Bosco 18 que o Osvino Ferreira Alves seria o ministro da guerra do governo socialista. Quanto sonho, quanta ilusão.

Já então, muito antes do golpe, coordenando o Grupo Nacionalista em São Paulo de "O Semanário", encabeçado pelo general Stoll Nogueira, pró-Lott, ficou claro que os quartéis teriam que escolher entre a raiz integralista e a tintura que formou, no Exército, o sentimento de pátria e socialismo, de Prestes ("Um soldado absoluto", de Wagner Willian). A traição de Kruel e a manipulação midiática denunciada por Juremir Machado definiram o horizonte de terror. Votos para que Juiz de Fora, de Irineu Guimarães e Clodesmidt Riani, renasça das cinzas e recupere os sonhos de Jango, o verdadeiro herói enlameado pelo reacionarismo de 1964 e do golpe midiático civil-militar.

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