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19 de Janeiro de 2014 - 07:00

Por OTÁVIO MAIA Antropólogo

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A violência entre jovens funkeiros é uma realidade em Juiz de Fora. Mas tal realidade não é de agora. Contudo, nos últimos anos, tornou-se, digamos, incômoda. Pois, se na década de 1990 do século passado o conflito entre jovens funkeiros, quase sempre, acontecia na saída do baile funk, hoje não é mais assim. Vários locais da região central da cidade, em qualquer horário, pelo que consta, já estão sendo palco para esses confrontos.

Confronto entre jovens que são irmãos e semelhantes, se considerarmos sua origem social, a cor da pele e a história de vida, enquanto elementos de aproximação, ou seja, uma consanguinidade social, que, contudo, não promoveria laços fraternos. Ora! O que explica essa guerra, que é feita de chutes, pedradas, pauladas e alguns disparos com arma de fogo? Brigam por quê? Algumas considerações devem orientar a reflexão aqui proposta. Consideremos: o jovem funkeiro - vale a ressalva de que nem todo aquele que curte o funk opta pelo conflito ao andar junto do seu grupo, ante o olhar de espectadores - nem deve ensaiar a cara de homem mau, violento, cara de raiva. Acreditem, é para fazer medo, mesmo! O andar é gingado, cheio de marra, como um malandro, neste caso, que vira bicho. O corpo é ornamentado por artefatos: equilibrando sobre a cabeça um boné da marca Adidas, os pés calçam tênis da Nike, cordões; alguns são de fato de prata, decoram o pescoço.

A briga entre funkeiros é para decidir quem é o mais forte, qual bairro é o mais temido; lutam pelo status de homem mau, perigoso e violento, levando jovens da nossa cidade a sonharem em ser um soldado do morro - sujeito homem que desfila em favelas cariocas fazendo uso de fuzil, trocando tiro com o Estado, que é a polícia. Estado que mata, portanto...

É curiosa a maneira pela qual nossa sociedade faz a partilha dos seus bens, incluindo sonhos e projetos. Pois refletir sobre o conflito entre grupos de funkeiros implica compreender o contexto que lhes é oferecido, bem como a ambição de ser violento e o sonho de ser mau. E, não nos enganemos, tal problema não deve ser julgado de forma isolada, concentrando a culpa em locais e pessoas específicos. A culpa não é do prefeito fulano de tal, sendo que, para além da marra que esses jovens usam como forma de interação, há um processo histórico, decisões políticas, ausência do Estado; figura uma sociedade que insiste em se fazer de vítima diante dos seus próprios erros... Valores não são elementos de ordem congênita ou relacionados à consanguinidade. São sugeridos e ensinados...

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