Publicidade

16 de Julho de 2014 - 08:32

Por DÉBORA FAJARDO

Compartilhar
 

A exposição "Brasil - um país, um mundo", que rodou as capitais-sedes dos jogos nos dias que antecederam o Mundial, mostrou os trajes usados no futebol em várias épocas. O curador Ricardo Corrêa destacou a chuteira com ponta de madeira usada pelos europeus. No século XIX, dizia ele no programa "GNT fashion", quase todos os garotos ingleses tinham uma. A marca desse futebol: chutavam de bico. Essa é talvez a maior diferença do estilo de jogo desenvolvido pelos sul-americanos. Como não tinham chuteiras, chutavam com todos os lados do pé para proteger o dedão. Até os anos 1960/70, um grande número de brasileiros não tinha calçados; andavam e jogavam descalços.

A observação do curador aponta razões plausíveis para o talento com a bola, desenvolvido abaixo do Equador. A necessidade é a mãe da invenção, dizia Platão. O futebol que encantou o mundo e conquistou títulos inéditos tem suas causas inscritas na cultura e na história, muito mais do que em explicações exotéricas.

A criatividade dos brasileiros é famosa extrafronteiras e vai além do futebol. O drible nas dificuldades cotidianas, a inventividade para suprir carências, a superação revelam, ao mesmo tempo, o grande potencial de um povo e também as mazelas políticas e administrativas que lhes são impostas. Não é um destino místico que desenha o caminho dos povos; são ações concretas na educação, na alimentação, no esporte como meio de socialização e de alto rendimento.

O tricampeão Carlos Alberto Torres, autoridade no assunto, fez duras críticas às condições que cercaram a Seleção Brasileira nesta Copa. "As saídas e chegadas dos jogadores, na Granja Comary, mais pareciam recepções a um pop star. E essas manifestações não eram espontâneas, aquilo era armado", bradou. No programa de debate da TV a cabo (na TV aberta, provavelmente, seria censurado), Capita emendou: "toda vez que houve 'oba-oba', a Seleção perdeu". Vide o exemplo de 1982.

Enquanto isso, os jogadores alemães faziam o dever de casa. Concentrados no Sul da Bahia, treinavam e estudavam o adversário, longe do deslumbramento e do vedetismo. Não contaram com o conluio dos "deuses dos estádios", com mandingas ou uma conspiração cósmica. Plantaram e colheram os louros da disciplina, do planejamento e do trabalho em grupo.

A derrota do Brasil deixa claro um recado para o futebol e para a vida: não dá para contar com o improviso. Foi-se o tempo em que os craques saíam direto dos campinhos de várzea para compor os times.

Nessa triste experiência, só não vale embaçar o "orgulho de ser brasileiro". Ele tem muitas razões de existir: a solidariedade, uma de nossas marcas, o acolhimento às pessoas de todas as partes, a honestidade de cidadãos comuns que devolvem os pacotes de dinheiro encontrados no aeroporto ou no metrô. Nosso orgulho, genuíno, não pode depender de uma seleção que ganha ou perde, às vezes de forma humilhante, apesar dos salários milionários que recebe. Nem da maioria de uma classe política e jurídica que moralmente não nos representa. Nós, brasileiros, estamos muito acima disso. E um jogo de futebol, afinal, é apenas mais um jogo de futebol no grande contexto da nossa história.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você confia nas pesquisas eleitorais?