Publicidade

24 de Junho de 2014 - 06:00

Por TADEU SILVA Colaborador

Compartilhar
 

Tudo acontece na arena da História. A Copa do Mundo expõe justamente, dentro e fora do campo, o diferencial entre a elite tradicional e os setores populares. Em disputa, o manejo do poder simbólico e sua produção, enquanto patrimônio a ser preservado, por cima, angariado, por baixo. Poder simbólico, segundo o filósofo Pierre Bordieu, é aquele cuja produção cultural (arte, religião, ciências, etc.), pela classe dominante, provoca a distinção entre a elite e as classes populares pelo consenso que legitima a hierarquia social.

É a disputa pela representação, forçando a barra da falta de nacionalidade, uma das construções que, por aqui, restaram incompleta e desigual, comprometendo a cidadania que acabou regulada enquanto forte e fraca, como indicou o sociólogo Wanderley Guilherme dos Santos. Assim, o estado nacional e a república decorrente tornaram-se fracos, diante dos fortes, e fortes, diante dos fracos, deixando de cumprir o dever de casa da inclusão social.

Tal regulação resultou em diferenciação severa no acesso aos recursos econômicos, e a sociedade brasileira tornou-se campeã mundial da desigualdade. Os programas sociais da "era Lula", no bojo do neodesenvolvimentismo, como definiu o cientista social Armando Boito, nomeando uma aliança mais geral em torno do PT, atacaram de frente tal realidade e repercutiram mundo afora. O prestígio que o ex-presidente angaria incomoda os arraiais da tradição, na medida em que interfere no acervo simbólico.

Não foi por outro motivo que o maior destaque da Copa, o exoesqueleto, projeto do cientista brasileiro Miguel Nicolelis, foi deixado em segundo plano na transmissão da abertura. A manipulação do conhecimento é um dos maiores trunfos do desempenho simbólico.

Evento mundial, a Copa, trazida para o país pelo prestígio do ex-presidente principalmente, pode ser o ponto alto de sua investidura como ícone. Tal protagonismo embaça e embaraça o consenso, dado ao caráter nordestino, pobre e autodidata do protagonista, que confronta com a imagem "sudestina culta" produzida e autorizada pela tradição. Jogo de significados, não é outra coisa o desconforto da elite com a presença popular nos espaços que sempre utilizou com exclusividade e distinção: universidades, restaurantes, aeroportos, etc.

É essa refrega que denuncia a inconveniência dos gastos, falta de legado, etc., ao ponto de se assistir ao escárnio de filhos da elite paulista fazerem ato de desagravo pela morte de operários. Tradicional campeã mundial de acidentes de trabalho, nem por isso assistimos a qualquer comoção mais consistente em nossa sociedade, herança do passado escravista. A realidade da disputa permite vislumbrar o pano de fundo eleitoral de sempre, porque é inevitável, com o tempero da questão simbólica. No final, a política é que autoriza o manuseio econômico, maior interesse em jogo. O resto é a legítima garantia da expressão que a sociedade brasileira conquistou, não sem muito sofrimento da maioria.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você está evitando contrair dívidas maiores em função da situação econômica do país?