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01 de Abril de 2014 - 06:00

Por TADEU SILVA - COLABORADOR

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Todos os crimes de lesa humanidade cometidos no Brasil tiveram o patrocínio e a cobertura ou do Estado ou da Igreja, através da classe dominante. A História brasileira desvela e revela cada responsabilidade institucional. A escravidão e suas consequências perenes, como o racismo, a desigualdade social persistente e a violência, formataram uma relação de cima para baixo que impediu e impede, ainda, o desenvolvimento dos pressupostos de uma forma verdadeiramente civilizada de convivência, que não se pode mais acobertar.

Civilizada seria uma maneira de instalação dos fundamentos do Estado moderno, qual seja, uma cidadania assentada nos princípios da igualdade, liberdade e fraternidade, pilares das sociedades avançadas. O professor Jessé Souza (UFJF) acusou, em seus estudos, o que chamou de cidadania regulada, em que o Estado é forte com os fracos e fraco com os fortes. Está aí a geratriz do mal e sua banalização, visto que a força é o argumento da organização social. Com isso, a escola, que deveria ser o antídoto, por ser a fortaleza do argumento, acabou sucumbindo, o que explica a degeneração do ambiente escolar, fragilizado enquanto canal de resolução dos impasses da sociedade.

É sintomático que os comandantes militares do Uruguai e da Argentina, na redemocratização, tenham pedido desculpas aos respectivos povos e que aqui no Brasil isso não tenha acontecido. Isso ressalta e ilustra a incivilizada condição que teima nas trincheiras do preconceito, da desigualdade, do atraso. O esforço pela paz social acaba enfraquecido pela falta de pré-requisitos sólidos. Uma das pioneiras dos estudos sobre a violência no Brasil, a antropóloga Alba Zaluar, alertou, ainda na primeira metade dos anos 1980, sobre a mudança de natureza da violência ao pesquisar na Cidade de Deus de então. O subúrbio carioca virou filme de sucesso, nefasta e ironicamente ilustrativo da forma de exploração econômica que gerou e criou o cenário da obra.

No que tange à Igreja, em face do extermínio identificado pelos órgãos oficiais, que acomete a juventude negra, um pedido de perdão pela escravidão, como aconteceu no caso dos indígenas e dos judeus, impactaria os formuladores das políticas e fortaleceria, perante a sociedade brasileira, de maioria católica, os reclames das entidades de luta e defesa das comunidades vitimadas. E indicaria a vontade política de superação do estágio pré-moderno em que nos debatemos ainda.

Tudo isso funcionaria como indutor poderoso da ação dos grupos, segmentos, associações, etc. que vêm buscando soluções para superar o atraso civilizatório e atenuar a violência. Mesmo porque induziria ações e diálogos caros aos setores, que nunca tiveram outra forma de tratamento que não a violência institucional e suas ferramentas, que não são, necessariamente, o saudável e respeitoso contato. E alçaria a discussão além do poderoso e nefasto varejo dos estampidos. Sem contar o irônico apego à falácia de uma democracia racial que acoberta toda a estratégia discriminante.

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