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21 de Maio de 2014 - 06:00

Por DÉBORA FAJARDO Jornalista

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Aconteceu em Juiz de Fora. Um especialista veio à cidade falar sobre autismo. A mãe, cujo filho tem o problema, assistiu atenta à palestra e, quando a palavra foi aberta para perguntas, indagou sobre a indicação da dieta sem glúten para autistas, já em uso em vários países. A resposta do especialista: "Se a senhora acredita nisso, pode acreditar também que uma trezena ou novena vai curar o seu filho. Essa dieta não tem comprovação científica".

Indignada, a mãe relata que teve vontade de ir à frente falar da melhora notável da criança, a partir da retirada do glúten, que vinha sendo feita há alguns meses. Entre os benefícios, cessaram os vômitos, que aconteciam de três a quatro vezes por semana, e também as diarreias e as cólicas; a agressividade diminuiu, e a sociabilidade melhorou. "Minha família passou a ser leitora de rótulos dos alimentos", conta. É importante explicar que a dieta sem glúten para o autista nada tem a ver com a doença celíaca; são problemas distintos.

A medicina, por não ser uma ciência exata, sobrevive em território movediço. As "verdades" podem mudar a qualquer instante, trazendo surpresas. Veja o caso do abacate; condenado e proscrito por décadas, virou recentemente o melhor amiguinho do coração. Muitos outros exemplos poderiam ser citados, mas não cabem nesse espaço. Importa destacar aqui o rompante e a certeza com que se afirma uma suposta verdade que daqui a pouco poderá ser desmentida. A tal da "comprovação científica" poderá nunca vir, a depender dos interesses em jogo.

A Igreja Romana tocou o terror, séculos atrás, ao levar para a fogueira pessoas que contrariavam o cânon vigente. Note-se que a maioria esmagadora dos condenados eram mulheres; algumas, por práticas estranhas, outras tantas, porque empregavam métodos de cura com o uso de ervas e recursos naturais. Vale destacar que as "feiticeiras" desafiavam não somente o poder clerical mas também a ciência da época.

A medicina acadêmica consolidava seus passos, na Idade Moderna, e não queria saber de concorrência. O livro do professor Timothy Walker, da Universidade de Massachusetts, recém-traduzido para o português, conta bem essa história. Em "Médicos, medicina popular e inquisição: a repressão das curas mágicas em Portugal durante o Iluminismo", o autor relata como os representantes da nova medicina profissional se aliaram ao Santo Ofício para desacreditar e eliminar os curandeiros, considerados concorrentes no mercado e "inimigos da razão científica". Séculos se passaram, mas, ao que parece, a mentalidade humana mudou pouco. Na era da tecnologia digital, há muita gente com vocação para ser um inquisidor pós-moderno.

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