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29 de Julho de 2012 - 07:00

Por MARCEL ANGELO Jornalista É interessante o que acontece com certas palavras. De tão utilizadas em alguns contextos, acabam nos levando a antever o que anunciam. Quando se lê crack num título de artigo, logo deduzimos tratar-se de um especialista alertando para a necessidade de "políticas públicas" mais eficientes, com "campanhas conscientizando" sobre o problema e a "importância da família" no processo. Aliás, não sei se outro uso foi proibido, nestes tempos de patrulhamento até do idioma, mas já faz algum tempo que não se vê, numa mesma frase, a droga em questão sendo mencionada sem sua fidelíssima companheira epidemia.

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Nunca fumei crack, nem tampouco tenho a intenção, mas pelo que os tais especialistas dizem, bastam algumas breves experiências para que o usuário se torne um "escravo" da droga. Não se questiona o sofrimento de milhares de pessoas que tentam recuperar sua autonomia, civilidade e saúde na luta para se livrar de tão maligna dependência: a estas, deve-se prestar toda solidariedade e apoio. Por outro lado, é difícil imaginar que todos os viciados, inescapavelmente 100% deles, sejam vítimas infantis de um sistema perverso, da sociedade cruel, da mão invisível do mercado ou sei lá o quê. Posso estar equivocado, mas não haveria mesmo nem sequer uma minúscula fração de adictos com livre arbítrio?

Mesmo sem duvidar da "epidemia de crack", começo a suspeitar que seja um conveniente recurso retórico para autoridades se esquivarem de sua responsabilidade. Já ouvi muitas vezes a referida expressão, mas não consta que alguém tenha procurado um traficante para conseguir uma dose de H1N1, dengue ou outra enfermidade epidêmica. Quem vê de longe se compadece, preocupa-se e, às vezes, até arrisca uma ou outra teoria de botequim. É, no entanto, de perto que tudo fica complicado. Desconheço a gravidade da crise em Juiz de Fora, embora a suponha; contudo, posso assegurar que, no Bairro Manoel Honório, há centenas de usuários, que fumam a pedra a qualquer hora do dia sem qualquer constrangimento do Estado - alguns deles curiosamente envergonhados diante da presença fugaz dos moradores, por sua vez aterrorizados pelo que possa acontecer.

Desculpando-me pelo título - foi a maneira que encontrei para chamar sua atenção, leitor -, termino sugerindo que não fume crack ou utilize qualquer outra droga. E que pense duas vezes antes de passar pelo Manoel Honório.

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