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20 de Abril de 2014 - 06:00

Por JORGE CARRANO Presidente da agência digital Tau Virtual

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Em recente evento no Canadá, Edward Snowden não entrou no palco. Apareceu em cena via robô, que operava de algum lugar no território russo. Sua localização é segredo, pois é procurado pelas agências de segurança dos EUA e da Europa. O que fez Snowden? Revelou segredos da NSA (National Security Agency) sobre o programa do Governo Obama para espionar pessoas, empresas e governos.

Quando perguntado por que resolveu vazar as informações para a imprensa, Snowden deu uma declaração interessante. Disse que poderia ter ido a uma comissão do Congresso, mas percebeu que, sendo um funcionário de uma agência de segurança, provavelmente "desapareceria" junto com sua história. Mas a Constituição americana garante liberdade de expressão da imprensa. Isso nos remete à vital necessidade de uma imprensa livre. Livre não quer dizer inconsequente ou irresponsável. Mas livre tem que significar o direito de pesquisar, investigar, entrevistar e dar voz aos cidadãos sobre qualquer assunto, por mais crítico e sensível que seja. Transparência é uma característica imprescindível do nosso mundo conectado. Algumas empresas e raros governos já perceberam isso.

O caso Snowden, de certo modo, remete ao de Julian Assange, fundador do site Wikileaks, do grupo Anonymous ou da blogueira cubana Yoani Sánchez, igualmente importantes por revelarem coisas que governos e empresas tentam manter em sigilo. Apesar de essas iniciativas serem repelidas pelos porta-vozes dos governos, e seus autores serem taxados de criminosos, começa a surgir um perigoso senso comum de que abrir mão do sigilo e da privacidade é um preço aceitável para se ter acesso ao novo universo de interações das redes sociais e aplicativos. As novas gerações parecem importar-se pouco com o fornecimento de dados pessoais ou para a forma como eles são tratados pelos sites.

No entanto, abrir mão de seus direitos - neste caso, o direito à privacidade - é uma atitude muito arriscada. Como disse Snowden, "seus direitos importam muito porque você nunca sabe quando vai precisar deles". Sob o impacto do terrorismo e da violência, as pessoas cedem às revistas, ao raio X, ao excesso de câmeras, ao monitoramento das comunicações. Isso movimenta uma poderosa indústria de serviços de segurança, equipamentos, de big data, de anúncios "sob medida" nos sites e redes sociais.

Mas a tecnologia que permite aos governos espionar as pessoas é a mesma que dá também poderes às pessoas de fiscalizar os governos. Edward Snowden não teria dado sua palestra no Canadá se não fosse pela tecnologia. A internet tem a possibilidade de ser usada para o bem ou para o mal. Mas se queremos uma internet para o bem, em primeiro lugar, ela precisa ser livre. Sem isso, não poderá agir a favor da liberdade. O que queremos fazer com a internet, como sociedade, diz mais sobre quem somos do que aquilo que ingenuamente postamos no Facebook.

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