Os córregos e rios que drenam áreas urbanas ocupam um capítulo especial e desafiador na gestão das cidades. Rios que, no passado, se integravam mais harmonicamente com as cidades, hoje encontram-se poluídos, assoreados e com mau cheiro. Como se não bastasse, em épocas de chuva (verão), muitos transbordam durante as cheias, desalojando famílias que, por negligência ou necessidade, se instalaram em suas margens. Essas inundações preocupam, pois geram uma cadeia de impactos adversos que desafia especialistas, cidadãos e prefeitos.
Para resolver o problema das inundações, a política de controle mais usada tem se apoiado no princípio de escoar as águas o mais rápido possível. Então são adotadas medidas de controle estruturais intensivas, como a retificação e posterior canalização (aberta ou fechada) da drenagem. Na canalização fechada, o rio é suprimido da paisagem urbana. Sobre a canalização, ergue-se uma avenida, como aconteceu com o Córrego Independência, ou projeta-se uma rodovia, como a BR-440, que, apesar dos problemas e críticas, deverá se instalar sobre o Córrego São Pedro, ambos em Juiz de Fora.
Quase não há quem desaprove, afinal, essas reformas estruturais aceleram o escoamento de córregos e rios durante as tempestades, afastando o risco de inundações nos trechos canalizados. Por outro lado, ao aumentar a velocidade das águas, deslocamos o problema, pois as inundações são transferidas para os trechos não canalizados à jusante. Em geral, as intervenções em segmentos de canais são ações isoladas que desconsideram a dinâmica de bacias hidrográficas em áreas urbanas e reforçam a tese equivocada de que, através da tecnologia, a natureza pode ser suprimida ou modificada aleatoriamente para atender aos imperativos do crescimento urbano. Precisamos inverter essa lógica, pois o crescimento das cidades precisa considerar e respeitar variáveis importantes, como a topografia, a dinâmica fluvial da bacia hidrográfica e as APPs (Áreas de Preservação Permanente).
Afinal, é possível recuperar a convivência harmônica com os rios? Recentes experiências com águas urbanas em alguns países da Europa e da Ásia confirmam que sim. A solução passa pela atitude de devolver o rio para a paisagem urbana através de uma reestruturação que combine a descanalização com a revitalização. São projetos que exigem ousadia política e conhecimento aprofundado das condições hidrológicas e ambientais. Também precisam estar em conformidade com o Plano Municipal de Saneamento que contempla abastecimento de água potável, coleta e tratamento do esgoto sanitário, gerenciamento de resíduos sólidos, drenagem e manejo das águas pluviais urbanas (Lei Federal nº 11.445/2007 - diretrizes nacionais para o saneamento básico).
Sabemos que não é mais possível o retorno às características ambientais originais, pois as complexas relações ecológicas foram destruídas, mas, através da melhoria da qualidade das águas e de um trabalho de recomposição paisagística, com parques lineares, teremos a reinserção dos córregos e rios na paisagem urbana. Reitero que ainda faltará o mais importante: mudar a percepção e o comportamento da sociedade para restabelecer a convivência harmônica com os rios.



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