No último dia 15, a Câmara Municipal de Juiz de Fora deu um grande passo para se reconciliar com a opinião pública da cidade. Ao votar pelo fim das verbas extras, apelidadas pela imprensa de "penduricalhos", a atual Legislatura renovou a credibilidade conquistada nas urnas e abriu para si as possibilidades de exercer um mandato de qualidade muito superior às suas antecessoras.
Poderia ser melhor, é verdade, se tivéssemos tomado tal decisão no segundo dia do ano, quando iniciamos nossos trabalhos. Isto nos pouparia do constrangimento provocado pelo noticiário local e nacional, que expôs ao país os "abusos remuneratórios" aqui praticados, desbloqueando nossas ações para enfrentar temas mais importantes e urgentes. Teríamos perdido alguns milhares de reais e ganhado o que nenhuma quantia pode comprar: confiança e respeito. Foi esta convicção que me fez lutar, ao longo de quatro anos, contra o pagamento destas verbas, isolando-me dos demais quando decidi abrir mão delas, ainda em 2009. Penso que a eficácia de qualquer trabalho está diretamente relacionada à credibilidade do seu autor. Isto vale para todas as atividades profissionais, mas especialmente para a política. Que lei ou qual iniciativa será obedecida ou apoiada se o mandatário não for respeitado ou se tiver sua conduta amplamente reprovada pela população?
Gosto de repetir o ensinamento do filósofo grego Nícos Pulantzás; segundo o qual, as ditaduras são os regimes políticos mais frágeis, justamente pela falta de legitimidade e aceitação popular dos seus chefes. Não por acaso, foi justamente no período militar (1964-1985) que se introduziu, no Brasil, um sistema de cooptação das lideranças políticas baseado na substituição de prerrogativas pela oferta de regalias. Como o uso do cachimbo deixa a boca torta, conforme o dito popular, os governos e o Judiciário pós-ditadura permitiram que esta prática fosse estendida às assembleias e câmaras municipais, que, tirando proveito de sua pequena visibilidade, "enfiaram o pé na jaca".
Tolos, não percebemos que, quanto mais ostentamos ganhos e vantagens pessoais, mais nos distanciamos do cidadão comum, fonte de nossa legitimidade, reforçando no imaginário popular a ideia de que política é sinônimo de dinheiro fácil, por vezes, desonesto. Daí a importância da decisão que acabamos de tomar. Precisamos enfrentar o debate, assumir riscos e cortar na própria carne, se quisermos, inclusive, recuperarmos o papel pedagógico que está na origem do trabalho político. Ensinamos pelo exemplo, embora muitos não percebam a sutileza deste processo. No momento, Juiz de Fora nos observa como se fosse uma grande sala de aula. O que dizemos ou fazemos tem reflexos no cotidiano de nossa cidade e no comportamento de seus moradores.
Depende de nossas ações futuras o sucesso deste "curso de cidadania" que iniciamos agora e que será concluído no final de 2016. Nunca é demais lembrar, no entanto, que, nesta escola, a população aprende e ensina, mas quem estará sujeito à aprovação somos nós, aqueles que disputam o voto popular. Portanto, façamos por merecê-lo.



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