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08 de Junho de 2014 - 06:00

Por CASSIMIRO BAESSO Colaborador

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Durante oito anos, tive a fortuna de participar da vida de Nívea e Décio Bracher. Tudo começou quando resolvi ter um retrato pintado por ela. Após muita insistência, talvez até um pouco inconveniente, marcamos um encontro e iniciamos as sessões para a realização do quadro. Retrato esse que, além de carvão e tinta, levava também a alma do retratado, com uma sofisticação e uma identidade pictórica sem iguais.

Mas o melhor e o principal de toda esta história foi que, durante as sessões, cresceu uma bela amizade. O quadro tornou-se apenas um pretexto para os nossos encontros, mesmo porque, a meu ver, ele foi concluído na primeira sessão, em apenas 20 minutos. Nossas conversas, aos domingos, eram regadas a um bom vinho tinto, acompanhado das comidas mais improváveis que se possam imaginar. Falávamos de tudo, mas, principalmente, sobre arte e o papel e a influência da arte sobre tudo. Aí entra com propriedade a figura solar de Décio Bracher, provavelmente a pessoa mais inteligente que já conheci.

Detinha um conhecimento enciclopédico, uma memória assombrosa e uma refinada erudição borgeana, mas sem o menor traço de pedantismo. Era arquiteto e um pintor de muitos recursos; apesar de nunca se enxergar como artista plástico, produzia aquarelas refinadíssimas e tinha um desenho ágil e incomum. Sabia tudo de história e geografia; desfiava dados, datas e personagens, e, muitas vezes, a partir de um simples comentário, surgiam aulas brilhantes que nos deixavam atordoados. Desenhava mapas detalhados de qualquer região do mundo como se fossem seu quintal.

Mas creio que, de tudo, o seu amor e seu conhecimento sobre música clássica eram soberanos e monumentais. Cantava árias inteiras, explicava-nos as óperas, os seus compositores preferidos - especificamente o "seu Sebastião Bach", que, segundo ele, "reordena os neurônios e faz a gente ficar sem peso". Tentou arduamente me iniciar no mundo da música erudita, mas só privilegiados têm ouvido igual ao dele; e neste ponto não fui um aprendiz à altura de tal mestre.

Nívea era uma interlocutora à altura do irmão. Possuía uma cultura sólida em artes, cinema e futebol - queria muito ver a Copa de 2014. Cinéfila de carteirinha, ela tinha um interesse e entendimento especiais sobre a Nouvelle Vague, mas se divertia igualmente vendo um faroeste italiano. Ela me contagiou com seu amor pelos interiores de Pierre Bonnard, pelos céus de Turner, pelas flores de Guignard e, ultimamente, encantava-se pelas superfícies de cor enganosamente simples de Rothko e Ianelli.

Quanto ao meu retrato, ficou na coleção de Nívea até o fim. Ela dizia que ele não estava pronto e que ainda precisava amadurecer. Mas, de fato, quem amadureceu fui eu. Se foram juntos em abraço fraterno. Nívea, aos 74 anos, mas ainda uma criança; e Décio, com 81, mas mal-saído da adolescência.

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