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08 de Maio de 2014 - 06:00

Por ALLONY REZENDE DE C. MACEDO Mestrando em história

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Tem dia que é difícil levantar da cama e começar a trabalhar. Sobretudo quando a gente ganha uma pá de cal, ou pá de caos, sobre a fé que ainda guarda no ser humano. Pelo impacto do acontecimento, este desabafo pode correr o risco de se mostrar sensacionalista demais, simplista demais... Sinceramente, não é o que me preocupa. Não quero fazer aqui uma análise sócio-histórica, apontar culpados, causas. Só desejo externalizar minha consternação, minha dor, minha decepção, minha solidariedade à família e outros sentimentos para os quais não tenho palavras. Matamos mais um inocente em um bárbaro tribunal de rua à luz do dia. Não, Fabiane Maria de Jesus não foi a primeira deste ano e, ao que parece, não será a última.

A polícia está violenta? Os alunos estão violentos? Os pais estão violentos? Os religiosos estão violentos? Os bandidos estão mais violentos? O trânsito está violento? Fico com a sensação de ser um problema que se torna cada vez mais geral. Estamos cada vez mais violentos, mais intolerantes, menos pensantes, menos humanos. Jogamos vasos sanitários nas cabeças uns dos outros, arrastamos corpos pelo chão, esfolamos, damos tiro à queima-roupa. Quem é mocinho, quem é bandido? Muitos de nós matamos, massacramos e não damos a mínima para o outro. O que queremos é levar nossas verdades às últimas consequências. A última vez que um sujeito e seu séquito se projetaram como donos de uma verdade absoluta, que salvaria seu país de todos os males, vimos a catástrofe que gerou. Uma visão maniqueísta não cabe aqui...

A sensação de que criamos monstros é inevitável. Qualquer um, por um boato, ou por qualquer outro motivo, pode ser espancado até a morte por aqueles que se julgam mais corretos, melhores cidadãos, homens e mulheres superiores e defensores das leis, da moral, da família, de qualquer coisa. Leis que criam nas suas próprias cabeças ou sei lá onde. Jogamos na lata de lixo toda a construção de leis e direitos que se desenrolou ao longo de nossa história. Desconhecemos esse processo? Talvez por isso não lhe damos o devido valor?

Não faço ideia. Só consigo ver que seguimos acreditando cada vez mais nos defensores do "povo", que se propagam nos canais de TV, nas ruas, nas filas do banco, do mercado, nos elevadores, arrogando-se à tarefa de mostrar que tudo está perdido, de que seria compreensível amarrar ao poste, espancar e agredir ao bel prazer. As instituições? "Que se danem, ninguém precisa delas." Assim muitos pensam. Assim todos pagamos o pato. Assim qualquer um de nós pode estar na berlinda amanhã, sem chance de defesa, encarando a morte pelas mãos daqueles que são iguais, mas que assim não se enxergam.

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