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16 de Março de 2014 - 06:00

Por DANIELA AUAD Professora da UFJF

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Quando você nasce nela e acha que sente ainda o conforto do útero quando caminha pela caótica Avenida Paulista.

Isso era o que eu pensava, era o que bastava e era bem verdade para mim. Mas não bastou e, assim, uma cidade para ser minha precisou ter mais, talvez muito mais, do que a minha amada desde sempre e para sempre avenida, que exila corações, mas não o meu. Hoje, chamo de minha a cidade na qual encontro a escola que acolhe a educação da minha filha e aprecia a minha família. A escola onde posso tomar cappuccino, sentada nas mesinhas da cantina do elegante senhor grisalho e onde há a orientadora pedagógica que eu gostaria de ter me tornado se não tivesse sido seduzida pela universidade.

Sim, claro, há a universidade. Motivo federal que pode trazer carradas de pessoas, ano após ano, para o meio desse punhado de montanhas, estas que, mesmo lindas, eu gosto de chamar de desnecessárias. Assim como as montanhas, uma universidade pode ser pouco para dizer que uma cidade é minha. Mesmo sendo federal e mesmo sendo de excelência, ainda é pouco. Talvez essa sensação de insuficiência seja ranço uspiano, de se querer muito excelente, mais excelente que os demais. Talvez seja esse ranço somado ao modo paulistano de reclamar de tudo, o tempo todo e, com essa tamanha insatisfação, encontrar um modo de lidar com a bruta flor do querer. Ai, tão duro se perceber assim... E, olha aí, eu reclamando de mim...

De um jeito ou de outro, uma cidade é minha quando, além de ter uma universidade pública e de excelência (e, não, infelizmente, nem é uma redundância, nos dias de hoje), a cidade tem uma universidade que pode ter colegas tão competitivos, deslumbrados e Capes centrados quanto em todas as outras universidades, mas só nela há os que se importam, de verdade, com você, com o que você pensa, escreve e, ainda, têm tempo de brigar com e por você. Sim, de modo bem italiano, eu sinto que quem briga é porque ainda se importa...

Ah, e tem os alunos e as alunas! Essa gente que, se universidade fosse casamento, eles e elas seriam filhos e filhas! Você estava ali, na sua vida, fazendo o seu trabalho e, de repente, conhece umas gentes que fazem homenagens, chamam para baile, discursos! Eu, que nem sabia mais comprar vestido de festa, saltos e bolsinha, estou tendo que acessar o universo fashion dos eventos para dar conta desse amor que transborda para além da sala de aula, da biblioteca, do trabalho escrito, da nota no sistema.

Uma cidade é a sua cidade quando, você, professora, encontrar o maior número de alunas e alunos que você pode chamar de seus para toda a vida, mesmo depois da formatura. E, então, você sentirá que ser professora é, de fato, mudar o mundo um pouco todo dia, no olhar, na voz e no gesto daqueles e daquelas que você educa e que olham, falam e tocam aonde seus olhos, sua voz e suas mãos jamais dariam conta de chegar!

A minha cidade, com esses meus alunos e alunas, me dá quase a sensação de onipresença. E dá-lhe humildade para não ficar se sentindo como os médicos! Perdão! Digo, como Deus. Uma cidade é minha quando, no meio da bruma da noite e com as luzes das lindas luminárias, posso me sentir acompanhada de quem já andou pelo mesmo calçadão, com as mesmas saudades e com a mesma inquietação que eu tenho. Essa inquietação - que é minha, é de muita gente e era do meu pai - de descobrir qual é a sua cidade para, afinal, descobrir quem você é.

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