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07 de Maio de 2014 - 06:00

Por LEANDRO CRUZ Médico neurologista

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O museu Mütter encontra-se na Sociedade de Medicina da Filadélfia e tem um acervo dedicado a aberrações anatômicas e doenças raras documentadas em fotos, peças de cera, órgãos e ossos. Trata-se de uma sinistra lição prática sobre infortúnios de pessoas que desenvolveram ou nasceram com anomalias. Além da óbvia excentricidade de sua existência, o museu reserva duas surpresas interessantes. A primeira é uma caixa de lâminas com cortes histológicos do cérebro do cientista Albert Einstein (1879-1955), retirado sete horas após sua morte, sem permissão da família, pelo médico patologista Thomas S. Harvey. O ato imprudente do nobre colega rendeu-lhe sua expulsão do Hospital de Princeton. O cérebro ficou guardado em segredo por 20 anos e, uma vez revelado, gerou estudos que tentavam relacionar as alterações anatômicas encontradas no cérebro do físico à sua genialidade. Não se pode concluir que tais alterações seriam responsáveis pelos resultados brilhantes do alemão.

A outra surpresa é a coleção de crânios humanos do anatomista austríaco Joseph Hyrtl (1810-1894), realizada com o intuito de mostrar as alterações anatômicas que comprovassem a superioridade da raça ariana. Foram coletadas amostras mundo afora, e diversas análises foram realizadas sem que fossem encontradas quaisquer diferenças significativas. O fato foi recentemente explorado no filme Django Livre, de Quentin Tarantino. Na irônica cena, o personagem interpretado por Leonardo DiCaprio explica aos presentes, segurando o crânio de um fiel escravo que havia pertencido ao seu avô, a superioridade caucasiana a partir de uma insignificante alteração.

Acrescento, ainda, que estudos com DNA mostraram que somos a mesma espécie. Surpreso? Pergunto-me frequentemente as razões que levam um ser humano a acreditar que exista uma raça biologicamente superior até os dias de hoje. Não há qualquer evidência científica que sustente hipóteses neste sentido, e, pelo excesso de respostas negativas, a ciência segregacionista não existe mais. Por outro lado, manifestações sexistas, racistas e homofóbicas são vomitadas em profusão.

Será que o crânio ou cérebro de arremessadores de bananas e seus pares nas esquinas são diferentes dos demais? Será que a imbecilidade traz consigo anomalias anatômicas ou é puro mau uso do nobre conjunto da rede neuronal? Tenho por mim que é mesmo o maior desperdício de milhões de anos de evolução para que nascesse o Homo sapiens, a espécie do saber. Somos todos Homo sapiens, e os crânios dos racistas seriam mais umas amostras nas prateleiras do Mütter, como todos os outros.

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