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06 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Por MARIA CRISTINA S. DA SILVEIRA - PROFESSORA DE PORTUGUÊS E DOUTORA EM LETRAS PELA UFRJ

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Antigamente (não sei como é hoje, faz 22 anos que fiz meu último concurso), ao se fazer a chamada prova-aula como parte de um concurso para um emprego no magistério, devíamos prestar muita atenção nos vícios de linguagem. Aquelas palavrinhas usadas repetidamente durante a aula. Isso cansa o ouvinte, no caso o aluno, que passa a prestar mais atenção nessas palavrinhas do que na aula em si. E é cansativo, demonstra nervosismo, despreparo ou mesmo problemas linguísticos. Isso é uma realidade.

Mas, de uns tempos para cá, é possível escutar na mídia televisiva, especialmente nos telejornais, tanto apresentadores e jornalistas quanto entrevistados soltando uma porção de "aí" de maneira totalmente descabida. "Eles estão chamando de dois confrontos aí", "Ninguém garante que eles são capazes aí de maior investimento", "O São Paulo está retornando aí ao campeonato", "Muito obrigada aí pelas suas informações", "Você acaba a todo momento querendo aí um novo brinquedo", "Nós desejamos melhoras aí para o jogador". Até cansa, não é mesmo?

Aí é uma palavrinha que pode ser usada como advérbio de lugar, por exemplo, "você está aí", ou como uma conjunção, no lugar de então: "estava chovendo, aí ele levou o guarda-chuva". Esse "aí", inserido indiscriminadamente nas frases informais dos brasileiros nos dias de hoje, esse vício chatinho, compulsivo, pela própria definição de vício, e absurdamente repetido, é um fenômeno linguístico. De vez em quando aparece um: "tá", "né", "sabe", em meio ou em final de frase, repetidamente.

Parece uma pausa para quem está falando, um breve momento para se pensar no que vai ser dito em seguida, porém, quando todo mundo passa a usar a expressão e várias vezes durante seu discurso fica irritante. Demonstra claramente ser um vício. A pessoa não sabe mais fazer uso da palavra, de maneira espontânea e em situações informais, sem usar o "aí". É quase uma moda, está por todos os lugares do Brasil, é só prestar atenção nas falas de brasileiros de Norte a Sul ao assistir um telejornal.

Pessoas comuns, ao serem entrevistadas, podem até ficar nervosas, não prestam muita atenção no que dizem, mas jornalistas são profissionais da comunicação, são assistidos por milhares de pessoas atentas ao que dizem, são formadores de opinião e exemplos de falantes cultos, portanto, têm o dever de falar a língua materna de maneira mais correta e cuidadosa possível. Sim, há uma língua culta, e é dela que depende a continuidade de uma só língua nacional, um código entendido por todos e cujo domínio é direito de todo cidadão.

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