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14 de Março de 2014 - 06:00

Por CARLOS MAURÍCIO DE M. R. PEREZ - COLABORADOR

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Toda doutrina religiosa e toda nação preponderante desprezam radicalmente o indivíduo e, ao contrário, o intimam e o forçam para que ele se insira na coletividade. Deus é hoje a palavra mais vazia de todos os tempos e é, também, a usada com menos cautela. Ir ao templo é lhe prestar um grande favor, e o mesmo vale para o sacerdote, quando, usando o seu nome, concede ao indivíduo doutrinado o título de piedoso e probo.

Jesus não era cristão e é o ídolo do cristianismo, e o mesmo acontece com Maomé e Buda, ídolos de religiões que nunca praticaram. Esses mestres tentaram nos passar o ensinamento do amor, e não do dogma (religião); no dogma, não existe amor. A naturalidade com que se peca é a mesma com que se redime; exemplos de pecados e remissões estampam o cotidiano de nossas vidas. Em um passado recente, pais descontentes ao verem suas filhas solteiras e grávidas abortavam a futura criança para não macularem seus nomes. Outros obrigavam casais ainda adolescentes a se casarem para também não macularem suas honras. Feitas as barbáries, caminhavam sorrateiramente ao confessionário e, veladamente, se redimiam. Quantos casamentos desfeitos e quantas vidas mutiladas estão trancafiadas nos confessionários?

O que aparenta hoje ser real o tempo nos mostra que pode ser irreal. Tais casais não tinham em seus pais amores, mas, sim, temores, igual a qualquer dogma. Essa é a liberdade da religião: viver de pecado em pecado, até o fim das nossas vidas, quando, na verdade, deveria ser ao contrário: viver da fé e do amor. Décadas atrás, meninos efeminados, de famílias tradicionais, eram enviados aos seminários para não macularem o nome da família. Somente nos dias de hoje, a verdade se fez valer: a Igreja concedeu a si o benefício do tempo, que pode trazer o bem em forma de mal ou o mal em forma de bem. Os meninos seminaristas se tornaram adultos, e ela recebeu uma enxurrada de processos, tamanha a quantidade de pedófilos e homossexuais dentro da doutrina. As infâncias destas crianças abusadas estão, para sempre, trancafiadas nos confessionários.

A multidão não se faz pecadora, logo, o dogma não peca, vê-se, então, que o trabalho da construção da moral humana está sedimentado por dogmas (verdades absolutas), o que não é saudável. Eles somente existem nas religiões e nas ideologias, e, quando se há tal verdade, não se encontra o amor, mas sim a dominação. É pelo escândalo que o pecado se faz presente. Essa foi a grande sacada da Igreja; o escândalo eleva o pecado ao grau do temor. Contudo, ele não se faz e nem se desfaz por intermédio de terceiros.

Estamos, portanto, sozinhos diante dele, a todo momento, e é o indivíduo que tece o caminho para a eternidade, relembrando seus mais insignificantes erros, aqueles que somente serão vistos na contraluz da eternidade. E Deus não tem olhos para a humanidade, como pregam as doutrinas, mas é no indivíduo onde ele detém sua força.

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