Uma década se passou entre a primeira denúncia de precariedade no atendimento psiquiátrico do Hospital São Domingos, feita pela Tribuna, e a intervenção na unidade, que passa a ser gerida, nos próximos 18 meses, pela Secretaria Municipal de Saúde, conforme medida definida na última terça-feira.
No primeiro dia da nova gestão, ontem, as portas da unidade foram abertas para a imprensa, e o cenário deixou estarrecido até mesmo o secretário de Saúde, José Laerte. Reportagem da Tribuna da edição de hoje revela um quadro difícil de ser descrito, tal o horror encontrado pela equipe: cheiro de urina por todos os cantos do prédio, por onde circulam pacientes ociosos, muitos deles nus, sendo alimentados com pão seco na primeira refeição do dia.
O que causa maior espanto é saber que o SUS destina cerca de R$ 400 mil mensais para o atendimento precário, em alguns casos desumano, a 300 pacientes, a maioria, crônicos, divididos entre o São Domingos e a Casa de Saúde Esperança, também sob intervenção. Ambas as unidades pertencem aos mesmos proprietários, que devem ser responsabilizados, junto com os gestores públicos, pelas irregularidades encontradas. É preciso lembrar que cabe a quem provê os recursos a fiscalização sobre a sua utilização.
A transferência de gestão não coloca um ponto final na tragédia pessoal desses internos. O modelo assistencial hospitalar é o que está em xeque. A sociedade tem que romper com a invisibilidade daqueles acometidos por problemas psiquiátricos. Muitos deles têm famílias, e estas podem e devem participar na busca de soluções para um atendimento mais digno. Por outro lado, a situação daqueles que não têm vínculos familiares é um problema de todos nós. Só assumindo esta responsabilidade, poderemos estar certos de não fazer parte de uma sociedade que aceita, silenciosa, quando não conivente, realidade tão escabrosa.



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