Nos imemoráveis tempos de inflação, Brasília era considerada apartada dos demais estados federativos não só pelo estilo de vida, mas também pelo olhar enviesado da burocracia, que não entendia a verdadeira realidade das ruas. Os projetos, sobretudo na área econômica, indicavam um incômodo distanciamento, como se fossem dois "brasis". Com a inflação domada ainda na Gestão Itamar Franco e, posteriormente, com Fernando Henrique, criou-se um novo cenário social, inaugurado após a chegada do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva ao poder. Os técnicos passaram a compreender os anseios populares, e as políticas se voltaram, de fato, para quem mais precisava. Além disso, a classe média conquistou benefícios, até então de uns poucos, e o poder de compra tornou-se uma realidade.
Mas se na economia afinou-se a sintonia, o mesmo não pode ser dito na instância política. O Congresso Nacional, formado legitimamente pelo voto popular e por ser a casa de representação de estados e comunidade, tem uma visão própria sobre os eventos que marcam o dia a dia do país. Ontem, a despeito de todas as denúncias e sob o risco de se ter um presidente engessado por questões judiciais, o Senado Federal elegeu o senador Renan Calheiros, o mesmo que, há cinco anos, deixou o posto para evitar um processo de cassação, para ser seu presidente pelos próximos dois anos. E não foi uma vitória comum. Ele teve expressivos 56 votos, enquanto seu adversário, Pedro Tasques, conquistou apenas 18. Como se tratou de um pleito secreto, o nome dos eleitores ficará no silêncio da história.
O que não se levou em conta é o desdobramento do caso. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, entregou uma robusta denúncia contra o parlamentar, que entra na fila do Supremo, por conta do foro privilegiado, mas que pode ter as primeiras instruções ainda este ano. Renan, certamente, vai governar sob o guiso de uma espada sobre a cabeça, pois não sabe quando será chamado, oficialmente, a dar explicações sobre seus atos, fruto da denúncia do procurador.
No momento em que o país celebra a recuperação do prestígio das leis, o gesto da maioria do Senado soa como um desafio, pois os parlamentares pagaram para ver.



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