Pare na pista


Por MAURO MORAIS

14/10/2014 às 06h00- Atualizada 15/10/2014 às 11h51

Trabalho de Lúcio Rodrigues, na Rio Branco com Espírito Santo

Trabalho de Lúcio Rodrigues, na Rio Branco com Espírito Santo

Há alguns meses, o grafiteiro do projeto Bula Temporária foi detido por pintar um trecho da avenida Rio Branco sem prévia autorização. Tratava-se de uma intervenção. E interferir não combina com consentimentos. No último domingo, 12, o artista retornou à avenida. Dessa vez, o convite foi feito, justamente, pelos responsáveis por autorizar. Na faixa próxima à Rua Santa Rita, no sentido Manoel Honório-Alto dos Passos, está “Pedestro”, um imenso pé azul, com grandes unhas amarelas, tão lúdico quanto os outros trabalhos do projeto. “A Rio Branco é um lugar muito tenso, mas foi tranquilo, parecia que estava em casa. Tivemos extrema liberdade para pintar o que quiséssemos”, conta o grafiteiro, que se identifica com o nome do projeto por acreditar na abolição da figura do artista em prol de sua proposta artística. O Bula Temporária se soma a outros nove grafiteiros, colorindo dez extremidades de cinco faixas de pedestres da Rio Branco, entre as avenidas Getúlio Vargas e Presidente Itamar Franco.

Linguagem de constantes críticas, o grafite serve à ação “Arte na faixa” como oportunidade de chamar atenção dos sujeitos do trânsito. Criada pela Agência Master para a Prefeitura Municipal de Curitiba, a experiência tornou-se um sucesso no Rio de Janeiro e chega a Juiz de Fora para integrar o programa “Pedestre na faixa: Respeite!”, da Secretaria de Transporte e Trânsito (Settra). “Ultrapassa a questão da educação no trânsito. É uma sensibilização que levamos para o cotidiano das pessoas. A arte na rua quebra a rotina, mostra o lúdico, conscientiza de forma leve”, comenta Renata Vianna, supervisora de projetos de educação para o trânsito da Settra. Segundo ela, existe o desejo de levar a intervenção para as zonas Norte e Sul, o que ainda está em estudo.

Autor de “Os simpáticos”, série de pinturas de bonecos em blocos de cimento perdidos pela cidade, o artista Luiz Gonzaga criou em sua faixa na esquina com a Rua Espírito Santo (sentido Manoel Honório-Alto dos Passos), uma padronagem de pessoas andando em diferentes posições. Ali também exaltou a ansiedade e a tensão nas ruas, o que sentiu na própria pele. “Peguei um ponto com tráfego intenso, via muitos motoristas irritados. Fiquei, até, com receio de melhorar o trabalho por conta de as pessoas estarem tão agressivas”, conta. Natural, afinal, a ação se foca, especialmente, nesse público. “Ela serve exatamente para as pessoas verem que a cidade é de todos, e dá para todo mundo se entender. O trânsito é isso, um espaço de negociação que dura o tempo inteiro”, reflete Renata.

Atenção, precisa ter olhos firmes

“Atenção ao dobrar uma esquina” e ao passar pela faixa, de carro ou a pé, os grafites estão divinos, maravilhosos. O trabalho feito por Lúcio Rodrigues, quase na esquina da Espírito Santo, no sentido Alto dos Passos-Manoel Honório, colocou sobre a faixa um menino com uma pena gigante, na qual colore e cria traços que vão próximo às pistas dos ônibus. “A arte é capaz de mudar o mundo, é capaz de dizer alguma coisa e até mudar um comportamento. Não tenho esse compromisso, mas estou certo de que ela muda. Mudou a minha”, diz o artista, que já pintou brincadeira de criança em pátio de escola, quadros para exposições em diversos locais da cidade e, também, muitos dos pontos de ônibus, hoje apagados pela mesma Settra que o convidou.

“Não deixe a arte escorrer pelo bueiro”, escreveu Lúcio em sua pintura na faixa. “Aproveitei a oportunidade. Pensei em interagir com o bueiro, não tinha a intenção de ser um manifesto. Para o que me chamar eu vou, a ação de pintar é que é importante”, ressalta, demonstrando não ter guardado ressentimentos. “A valorização do nosso trabalho é sempre gratificante. Falta um pouco disso na cidade. Juiz de Fora é muito conservadora”, diz o grafiteiro Igor Tenxu, referindo-se a uma resistência, ainda presente, em relação ao grafite local. “A arte é para chocar, nem sempre as pessoas vão gostar, mas esse também é um intuito. Nem sempre a arte é para servir o belo”, completa.

O trabalho de Tenxu, no cruzamento da Rio Branco com a Presidente Itamar Franco, insere um garoto atropelado na faixa e rodeado por dinheiro. “Quando nos reunimos na Associação Juizforana de Hip Hop, a AJH2 (parceira na ação), pensamos em fazer algo que levasse uma questão crítica. Dou aulas em oito bairros da cidade e vou de moto. Pensando nisso e considerando os gastos que tenho, fiz o desenho”, conta ele, que lança questões tanto aos pedestres quanto aos governantes. “O grafite, como um dos elementos do hip-hop, tem esse dever de conscientizar e mostrar algo que não é só a cultura pela cultura”, acrescenta.

[Relaciondas_post] De acordo com Luiz Gonzaga, “o sistema está começando a dar essa abertura para o grafite no cotidiano das pessoas”. Para o grafiteiro da Bula Temporária, não há descompasso na aliança entre uma linguagem tão contestadora e o governo. “É o sistema, mas a gente faz parte dele. Particularmente, não sigo ideologia de um gênero só, posso trabalhar para eles, sempre com dignidade e honestidade. Pinto com amor. O importante é a intenção”, pontua. “A arte não é a salvação. A verdadeira salvação está dentro de nós”, conclui, demonstrando que a faixa e suas artes dependem dos que passam por ela, colorindo-a ainda mais.