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03 de Novembro de 2013 - 07:00

Ao completar 30 anos de criação, direção da CUT reafirma a busca pela hegemonia política e analisa sua relação com o Governo petista

Por RENATO SALLES

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Nicoline, autor da fotografia, lembra dos discursos inflamados do primeiro Congresso Nacional, em 1984. Na época, ele ocupava a vice-presidência do Sindicato dos Jornalistas
Nicoline, autor da fotografia, lembra dos discursos inflamados do primeiro Congresso Nacional, em 1984. Na época, ele ocupava a vice-presidência do Sindicato dos Jornalistas

"Nos constituímos para ser instrumento de luta para mudar a sociedade, e mudar a sociedade significa disputar a hegemonia política." O discurso do presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, reforça a vocação política da principal frente sindical do país. O sindicalista esteve em Juiz de Fora na última semana para refletir com a militância local os 30 anos da CUT, comemorados este ano. No encontro, deixou claro que os ativistas cutistas deverão ter participação intensa no processo eleitoral do ano que vem. Todos os sinais indicam que, mais uma vez, a central deve caminhar ao lado da candidatura petista e apoiar a reeleição da presidente Dilma Rousseff.

"Não adianta querer impedir a CUT de participar das eleições. Não adianta tentar convencer nossa militância de que ela não pode participar da política. A política organiza a sociedade. Se nós não disputarmos a hegemonia da política, alguém vai assumir esse papel e mandar na gente", afirmou Vagner. Apesar de um provável apoio à Dilma em 2014, assim como aconteceu na primeira eleição da presidente petista e nos dois mandatos do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o comando da CUT faz questão de rechaçar os argumentos da oposição de que a central mantém "relação umbilical" com o PT. "A CUT não é atrelada a nenhum partido. Mas a CUT tem lado: o lado do trabalhador. Qualquer proposta que defenda o interesse do trabalhador, vamos defender. E, neste sentido, nunca na História do Brasil houve um Governo que defendesse tanto os interesses do trabalhador quanto os governos Lula e Dilma."

A relação íntima entre CUT e Governo, entretanto, fez com que a entidade fosse alvo de críticas na última década. Em 2005, sindicalistas de extrema esquerda, capitaneados pelo PSTU, criaram a Central Sindical Popular (CSP-Conlutas), que foi fortalecida pelo controle do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP). Dois anos depois, outra corrente descontente deu origem à Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), ligada ao PCdoB. "A CUT enfrenta hoje todos os desafios de uma força que se construiu na oposição e agora vê o partido que historicamente teve a hegemonia da central (o PT) na posição de governo. Isso produziu, produz e continuará produzindo muitas contradições internas de difícil solução", afirma o cientista político da UFJF Paulo Roberto Leal. Ele aponta ainda outros problemas vivenciados pelo sindicalismo brasileiro. "Há graves problemas de mobilização das categorias e processos de burocratização que afastam as bases dos sindicatos."

O cientista político da UFV Diogo Tourino observa que a mudança de cenário começou com a chegada do Lula ao poder - ele, sendo fruto desse mundo sindical. "Num primeiro momento, nada se podia dizer, pois tratava-se de um governante de esquerda que assumia o país depois de anos governado pelas elites. Qualquer crítica naquele contexto significaria municiar o retorno da minoria dominante ao poder. Em um segundo momento, porém, o esgotamento das relações levou ao surgimento de 'sedições' dentro do próprio sindicalismo, com o aparecimento de outras centrais. A CUT encontrou, a partir de então, oponentes dentro do movimento sindical, o que abre uma série de questionamentos sobre a representação dos trabalhadores no país hoje."

Legitimidade

O anseio da CUT em se afirmar como protagonista no cenário político nacional e valer-se de sua militância para ajudar a eleger e manter no poder projetos que defendam bandeiras trabalhistas não é visto por Paulo Roberto, porém, como problema. "É algo absolutamente natural. A militância sindical, assim como qualquer outra, dá conta de uma visão de mundo que é marcada por valorações ideológicas. Em todo o mundo, centrais sindicais estabelecem relações de afinidade com certas forças políticas que são próximas dessas visões."

Vereador em seu segundo mandato pelo PT e diretor do Sindicato dos Professores, entidade filiada à CUT, Roberto Cupolillo (Betão) afirma que existe uma identificação natural entre o partido e a frente sindical, porém, garante que a central mantém atuação independente. "Temos que observar as ações da CUT em relação a diversas posições do Governo federal e do Congresso. Recentemente, vimos enfrentamento contra o leilão do Campo de Libra e contra o projeto de lei 4.330, que legaliza as terceirizações em atividades-fins. A CUT é impulsionada por muitas pessoas ligadas ao PT, da mesma forma que as demais centrais se apoiam em outros partidos. O mais importante é que conseguimos manter nossa independência."

O discurso de independência é reforçado pela deputada federal Margarida Salomão (PT). A parlamentar também tem passado ligado à CUT e chegou a integrar a diretoria municipal da central na década de 1990. "Basta ver o comportamento da CUT nos últimos anos. Observar o número de vezes em que ela se colocou contrária à posição do Governo, para perceber que isto (relação de dependência) não é verdade." Para a presidente estadual da CUT, Beatriz Cerqueira, qualquer possibilidade de confusão nas atuações da central e do Governo foi superada no início do primeiro mandato do presidente Lula. "Isso ficou para trás. Em todas as recentes marchas de trabalhadores, a CUT tem sido protagonista, assim como nas tentativas de unificar esforços com outras centrais sindicais." A sintonia entre PT e CUT, entretanto, é inalienável. "Por mais que exista identificação, não podemos deixar de lado nossa atuação pelos interesses da nossa identidade maior que é a classe trabalhadora", garante o Vagner Freitas.


Mobilização pelo fim do fator previdenciário

O encontro em Juiz de Fora também serviu para a CUT convocar a militância para uma série de enfrentamentos que a central programa para os próximos dias. Já em novembro, a entidade promete fazer manifestações em todo o Brasil, atacando em três frentes. Os alvos dos protestos serão o aumento das taxas de juros, o projeto de lei 4.330, que legaliza as terceirizações em atividades-fins e, principalmente, o fator previdenciário. "É importante que a presidente Dilma e o Congresso entendam que é preciso acabar com o fator previdenciário. Trata-se de uma medida nefasta criada por FHC (o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, PSDB), mas que teve sequência com Lula e Dilma. Ou o fator previdenciário acaba por proposta do Governo ou vamos acabar com ele na marra, fazendo greve dos trabalhadores", afirmou o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas.

O presidente da CUT Regional Zona da Mata, Watoira Antônio de Oliveira, afirma que o braço local segue as orientações da executiva nacional. "Porém, temos nossas pautas próprias, que vão além das questões salariais. Recentemente, tivemos atuações importantes nas reivindicações referentes à passagem de ônibus e também contra a implantação do Cisdeste (Consórcio Intermunicipal de Saúde da Região Sudeste). Vale lembrar que nossa ação é organizada. Não é feita na base da baderna. Fazemos a luta há décadas valendo da negociação e de atos pacíficos."


Em 86, central ganha espaço em Juiz de Fora

Fundada em 28 de agosto de 1983, a história da CUT começou a ser escrita em um momento em que o Brasil vivia um período de grandes transformações políticas, econômicas e culturais. Era o início da redemocratização do país, após quase 20 anos de regime militar. A pedra fundamental para o surgimento da central foram as conquistas obtidas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, ainda nos anos 1970, e o surgimento de novas lideranças sindicais como o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. A entidade nascia grande e, em agosto de 1984, realizou seu primeiro Congresso Nacional, com a presença de 5.222 delegados de todo o Brasil.

"Antes de 1984, seria impossível fazer um congresso tão grande. A sensação era de que aquilo iria mudar o país. Naquele momento, demos uma contribuição muito importante. Foi uma experiência muito interessante. Um encontro que reuniu gente de todo o Brasil e sindicatos de várias categorias. O congresso foi marcado por discursos inflamados. Lembro que o Lula estava lá. Tudo foi deliberado em conjunto. Quem estava presente tinha direito a voto. Discutimos coisas importantes que ajudaram na construção da Constituição de 1988", afirma o repórter fotográfico Humberto Nicoline, então vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Juiz de Fora.

Conquista dos Têxteis

Os ecos da criação da CUT repercutiram em Juiz de Fora já nos primeiros anos da fundação da central, principalmente nos grupos que faziam oposição às direções sindicais da primeira metade dos anos 1980, ainda alinhadas ao legado deixado pelos militares. "A organização começou para valer em 1986. A maioria dos sindicatos que hoje são ligados à CUT fazia oposição sindical naquela época. Eu era da oposição metalúrgica, e a atuação da central era nossa referência", conta Paulo Azarias. Atualmente, o sindicalista atua no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserpu), entidade hoje sem nenhuma vinculação ao movimento cutista.

Os sindicalistas da cidade são unânimes em afirmar que a conquista da diretoria do Sindicato dos Têxteis, em 1986, por um grupo alinhado à CUT, foi preponderante para a consolidação da central em Juiz de Fora. "Aquele era o maior sindicato operário do município, com mais de 15 mil trabalhadores. Depois, vieram ainda o Sindicato dos Bancários e a construção do Sinserpu, em 1988", lembra Azarias. O vereador Roberto Cupolillo (Betão, PT) rememora ainda a atuação para a consolidação de vários sindicatos na Zona da Mata, já na década de 1990. "Um caso emblemático aconteceu na região de Cruzilha e Aurioca, onde trabalhadores de mineração viviam em condições de semiescravidão. Foi uma intervenção importante."

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